Na Grande Área (Armando Nogueira)
Aconteceu semana passada, na Itália. O jogo é Veneza x Bari. Está acertado, nos subterrâneos, que ninguém pode vencer. É um arranjo sinistro da cartolagem. Bola rolando, tudo de acordo com o script: primeiro, zero a zero; depois, um a um. O técnico do Veneza faz uma substituição. Entra, já no segundo tempo, o brasileiro Tuta. Instrução marota transmitida pelo jogador Maniero: Você não pode fazer gol! Esse jogo tem que acabar empate. Tuta fez ouvido de mercador. Não deu a menor pelota, foi lá e castigou: Veneza, 2 a 1. Mal-estar geral. Só um jogador foi abraçar Tuta: o também brasileiro Bilica, que estava no banco de reservas. O resto cuspiu fogo no pobre do Tuta.
A indignação levou dois jogadores do Veneza a interpelá-lo duramente. Só faltou algum chamá-lo de traidor. O escândalo já está na justiça comum italiana, onde Tuta vai depor, por esses dias.
A história é macabra mas, ainda assim, não deixou de comportar uma pitada de humor. O jornalista Giani Mura, do La Reppublica, ilustra o caso com uma deliciosa parábola. Conta ele que, certa vez, um explorador britânico, preocupado com a ferocidade dos animais africanos, passou a tocar violino no meio da selva. A experiência deu um pé enorme. A cada encontro, as feras iam se aproximando dele e, extasiadas pela magia da música, deitavam-se, docemente, pra ouvir o concerto insólito.
De repente, chega, enfurecido, um leão. Não deu tempo para nada. O leão estraçalhou o coitado com violino e tudo. Esparramado na primeira fila, o elefante fechou os olhos e comentou com a girafa: Ah, meu Deus! Chegou o surdinho!
O surdinho é o Tuta.
Conselho de Zaratustra





