Na Grande Área (Armando Nogueira)
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de janeiro de 1999
Gosto que me enrosco 
A moça é ligada em esportes. Diz que lê, sempre, a velha-guarda: o Juca, o Alberto Helena, o Calazans, o Noronha, o Matinas. Pede mil desculpas pela impertinência, mas quer saber dos meus gostos. Está escrevendo um trabalho sobre jornalismo esportivo. Deve ser tese de faculdade. A idéia até que é boa. Os cronistas de esporte somos um tanto mal afamados. Uns dizem que não sabemos escrever; outros acham que somos facciosos, meros torcedores disfarçados de analistas imparciais.
Quem sabe a justiça virá pela mão dessa moça?
De meus gostos pessoais, posso confessar à jovem leitora (diz ela que tem 22 anos) que gosto muito de futebol; não gosto nada de vermute; gosto de vôlei; não gosto de berinjela, a não ser quando feita à italiana, fritinha; gosto de tênis; não gosto de blazer; gosto de basquete, mas só fico deslumbrado, mesmo, se for o Michael Jordan ou a Paula: ele, quando o corpo se eleva em dois estágios, um, da cesta, outro, da glória; ela, quando o corpo se move, em espirais, descrevendo na quadra círculos de luz.
Gosto de quê mais? De voar, certamente; gosto de relembrar Otto Lara Resende, com quem aprendi um pouco a arte cristã de conviver; gosto de louras, de brancas, de morenas, de mulatas, todas mitificadas por Lamartine e João de Barros; gosto de vinho, sobretudo pelo sabor de milagre que tem o bordeaux; gosto da palavra, principalmente das palavras bem casadas, numa frase cadenciada; gosto dos poetas e dos poéticos, também; gosto da geometria feminina, sob todos os ângulos.
Gosto da rosa-dos-ventos, embora, entre todos os ventos, me desagrade o terral, que é morno, arrasta folhas secas pelo chão, e bate e rebate portas e janelas; gosto de ouvir Caetano Velloso, pra mim o mais perfeito cantor brasileiro, depois de Orlando Silva; gosto de ler o Cony, que domina, como poucos, a arte de escrever; gosto de ver uma borboleta pousada na paz de um jardim: voando, não; o vôo da borboleta é soluçante; gosto de me embrenhar na mata amazônica, guiado pelos versos de Thiago de Mello; gosto de refresco de graviola, fruta branca de neve em pleno calor tropical.
Enfim, tal como o respeitável Donga, gosto que me enrosco/ de ouvir dizer/ que a parte mais fraca é a mulher/ mas o homem, com toda fortaleza/ desce da nobreza e faz o que ela quer.
Um metro a mais
Há algumas paróquias esportivas que eu não frequento. O rugby é uma delas. Tal qual o futebol americano, seu filho único, o rugby é um jogo de colisões e de atropelamentos. Não me seduz. Nem por isso, pretendo negá-lo de cabo a rabo. Sei, por exemplo, de uma regra do rugby que me parece muito bem bolada.
É o seguinte: no rugby, toda vez que alguém do time infrator tenta embaraçar a cobrança (chutar a bola pra longe, plantar-se à frente da bola, etc), o árbitro manda cobrar a falta um metro adiante do lugar original. Cada tentativa de obstrução vai sendo punida com outro metrinho a mais. Naturalmente, seguida de cartão amarelo.
A experiência vai ser feita em todas as competições das ilhas britânicas, depois de um teste promissor já feito em campeonatos de menor expressão.
O futebol inglês já decidiu propor à Fifa que a regra seja adotada oficialmente pela Internacional Board.
A lambança que se faz na hora de cobrar uma falta é uma das coisas mais irritantes do futebol. Soma-se à indisciplina do jogador a complacência do árbitro. É um pequeno tormento.
Rápidas e rasteiras
- E a indisciplina ganha espaço no futebol brasileiro. Converter a punição em multa, a ser arcada pelos clubes, nada mais é do que um incentivo aos botinudos. Podem distribuir chutes e pontapés nas canelas adversárias que nada vai acontecer. Valoriza-se a violência, expõe-se o craque e se diz amém a quem só entra em campo para bater. O futebol está querendo dizer que o crime compensa.
- A queda de braço entre a Fifa e os clubes europeus teve round importante com a divulgação pelo presidente da maior entidade esportiva do futebol no planeta, Joseph Blatter, de que pretende realizar a Copa do Mundo de dois em dois anos. Tem sabor de provocação e desafio aos dirigentes que vivem a provocar a Fifa. É guerra para muitas batalhas e não pense Blatter que os clubes ficarão calados. Isso é apenas o começo.
- O Fluminense precisa tomar cuidado para não aumentar o número de piadas que envolve o clube desde que enveredou pelos caminhos da Segunda Divisão e depois comprou passagem para a Terceira. Esse negócio de anunciar jogador - o italiano Berti e o belga Preudhomme - e depois fracassar, não fica bem para um clube que precisa, principalmente, recuperar sua credibilidade. Que tal pagar os salários atrasados, cuidar do quarto e sala que habita e depois sair a gastar com astros e comprar uma cobertura de frente pro mar?
- Onde estará aquele Ronaldinho que encantou o mundo e por duas vezes foi eleito o melhor do planeta? Na quarta-feira, a televisão mostrou Inter x Parma e o atacante brasileiro pouco participou do jogo. É verdade que sofreu o pênalti, que Baggio - autor do lançamento - desperdiçou, mas nada além disso. No mesmo dia, o francês Zidane comandou o Juventus, que conseguiu dramático empate com o Milan no fim da partida e na casa do adversário. Zidane deverá ser o melhor do mundo na última temporada, mas Ronaldinho precisa recuperar o viço.


