Ganhei, de Natal, ‘‘Puskas, uma lenda do futebol’’. Foi presente de meu filho, Armando Augusto, que conhece, como ninguém, o meu entusiasmo pelas seleção húngara do quadrilátero de ouro Bozsik, Hidegkuti, Kocsis e Puskas. Vi-a jogar o Mundial de 54, na Suíça. Não perdia nem treino. Era levado por Janos Lengyel, jornalista húngaro que trabalhava no Brasil e que tinha total acesso à concentração magiar.
É como digo na orelha do livro recém-lançado no Brasil pela DBA: ‘‘A canhota de Puskas valia por duas. Era prodigiosa, na precisão e na potência do chute’’.
No livro que escrevi na companhia de Jô Soares e Roberto Muylaert relembro lances inesquecíveis da Copa de 54. Era minha primeira missão profissional, pra valer, fora do Brasil. E foi a seleção húngara de Puskas que me conquistou pras delícias do futebol-arte. Com essa majestosa equipe, descobri que o futebol é a minha segunda pátria amada.
Desde cedo, afeiçoei-me à seleção da Hungria. Vê-la jogar, mesmo em dia de treino, era um prazer. Puskas, roliço porém agilíssimo, dominava a cena. Tinha uma canhota assombrosa. Precisa e potente. Acertava sucessivos voleios, encaixando, sempre, a bola no ângulo superior das traves de Grosics.
Uma coisa intrigava os catedráticos do futebol: invariavelmente, a seleção húngara começava qualquer jogo fazendo dois gols, logo de cara. Fosse contra quem fosse. Vinha sendo assim, fazia dois anos. No torneio olímpico como nos amistosos pré-Copa.
Fui tirar a limpo, no dia do jogo Hungria x Uruguai, nas semifinais, no estádio de Lausanne. Janos e eu fomos ao vestiário húngaro. Fiquei de queixo caído. Não havia um só jogador parado. Todos uniformizados e se aquecendo intensamente. Parecia uma sessão de ginástica aeróbica dos dias de hoje. Estava ali o segredo: a equipe húngara já entrava no campo em ponto de bala. O adversário ainda estava ligando os motores e eles já podiam correr, a mil por hora.
O Uruguai está em campo como campeão do mundo. Traz um currículo de três vitórias: 2 x 0 na Tchecoslováquia. Deu de 7 x 0 na Escócia e de 4 x 2 na Inglaterra.
Como será hoje contra a Hungria, que chega às semifinais depois de esquartejar três vítimas: 9 x 0 na Coréia do Sul, 8 x 3 na Alemanha e 4 x 2 no Brasil? O escore das duas seleções, até aqui, ultrapassa a conta de um campeonato inteiro: o Uruguai fez treze gols e tomou dois. A Hungria fez 21 e tomou cinco. Total: 34 a sete. Uma avalanche de gols que só exaltava o poderio das duas seleções. E explica a enchente de público. É gente que não acaba mais!
Um rosto na multidão como que ilumina todo o estádio. É ela a princesa italiana que o meu amigo, brasileiro e milionário, trouxe de Roma para tornar a temporada esportiva bem mais romântica. Afinal, nem só de futebol é feita a vida de um conquistador ‘‘latin lover’’....
Os reis da Copa estão entrando em campo. Em fila indiana. Ombro a ombro. De um lado, a Celeste, de Obdúlio e Schiaffino: do outro, a camisa grená, sangue-de-boi, de Puskas e Boszik.
Em dez minutos de jogo, cumpre-se o infalível ritual: a Hungria já vence de 2 x 0, com gols de Czibor e Hidegkuti. Pelo visto, teremos, aqui, mais um massacre húngaro. Os uruguaios estão meio grogues. Mas, a bem da verdade, não parecem mortos. Dito e feito. A reação uruguaia arrebata a multidão. De um escore ingrato, os campeões mundiais chegam a um empate épico, no segundo tempo. E levam o jogo a trinta minutos de prorrogação.
Na prorrogação, a seleção húngara faz 2 x 0 em dez minutos.
Dias depois, no finalzinho do jogo decisivo da Copa, ninguém acreditava no que estava acontecendo. A seleção da Alemanha, encurralada, resistia à pressão húngara. Era um cerco irrespirável. Os lenhadores da Baviera tinham emergido de um 2 x 0 fulminante, no começo do jogo, pra um escore de 3 x 2, a dez minutos do encerramento. E a bola não entrava. O goleiro Turek, da Alemanha, estava com o diabo no corpo. Pegava até pensamento.
Nunca esqueci o ar de desânimo de Puskas, o major-galopante da grande seleção. Ele deixou o campo morto de cansaço e puxando de uma perna. Não devia ter jogado. A lesão de quinze dias atrás não estava curada de todo. No vestiário, antes da partida, o técnico Giula Mandi rolava a bola. Puskas comandava o gesto de chutar. Sinal de que doía o tornozelo. Mandi foi ao chefe da delegação, Gustav Sebes, e contou que Puskas não estava legal. O chefe respondeu com um olhar de soberba:
- Puskas não pode ficar no banco. Hoje, vamos ganhar a Copa e ninguém mais que ele merece receber a taça...
A taça acabaria nas mãos do capitão Fritz Walter, certamente o único e solitário craque, craque mesmo, da seleção alemã. Dois meses depois do Mundial, a imprensa européia descobria que metade do time campeão adoecera de icterícia. Naquele tempo, ainda não havia exame de doping. Mas, certamente, já havia doping... Só assim, alguma equipe poderia derrotar o prodígio húngaro.
Amarga a herança que me ficou do Mundial de 54, na Suíça. Menos mal que, volta e meia, eu tenho uma gostosa saudade da princesa italiana do meu amigo ricaço. Chamava-se Gina. Era linda. Cantava muito bem. Sua canção preferida era a napolitana ‘‘Anima e Cuore’’.

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