Na Grande Área (Armando Nogueira)
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de dezembro de 1998
Dinei, duas vezes Nei 
Pro Corinthians, 1998 é o ano que não terminará jamais. Alcançou a eternidade. No horizonte da memória corinthiana, dia e noite, noite e dia, despontará, sempre, Dinei, o manso de corpo e alma. Lá vem ele, traçando a bola, fingindo que vai-mas-não-vai, pra acabar indo mesmo. Dinei, bem sei. Me lembro do pai dele. Chamava-se Nei. Driblava com graça e sem pressa. O corpo era leve, descontraído, quase invertebrado. Fintava, bailando, a glorificar a arte do futebol com o ato de sua criação.
Jurava eu que, um dia, Nei chegaria lá. Tinha o que se queria de um grande craque: visão de jogo, antevisão de jogada, passe, drible, finta e chute. Brilhou na excursão européia do escrete brasileiro, em 63, se não me engano. De repente, passou a vestir calças boca-de-sino, a fazer sucesso com as moças, a andar de unhas esmaltadas. Perdeu o norte - da vida e do gol.
Morri de pena quando percebi que o futebol de Nei, imenso, se acabara na voragem do nada. Anos depois, o mesmo desapontamento me abateria, quando vi reproduzir-se em Dener o drama de Nei. Dener era o seguinte. Um bailarino, cujo corpo, de puro instinto, era habitado por gestos de indisfarçável cristalização artística. No talento, os dois eram irmãos gêmeos. O diabo é que, no juízo, os dois também eram da mesma irmandade. Dener acabaria morrendo, tragicamente, depois de uma noitada daquelas.
Dinei tem também sua história de desatinos. Mocinho, cheio de bossa, encantava os estádios paulistas. De Nei, herdou a molência no corpo inteiro. Não é vertiginoso como o pai. Pelo contrário, é manha só. Da noite pro dia, impôs-se craque. Mal chegado à fama, mas ainda bem longe da fortuna, caiu na farra. Pintou os cabelos cor de fogo. Numa noite de embalos, cheirou cocaína. A droga apareceu no exame antidoping. Era o fim de mais uma esperança. Saiu na manchete dos jornais como a ovelha negra de sua geração.
Felizmente, ninguém sabe o bem que se esconde no coração humano. Dinei sumiu do mundo. Resguardou-se de tudo que fosse futebol. Entregou a alma a Deus e a cabeça a uma rigorosa terapia. Refeito, virou anjo e começou a contar em palestras a atroz experiência porque passara, quando se julgava o rei da cocada preta. Converteu-se em lição de vida pra outros jovens tão desavisados quanto ele, no começo da carreira.
Lá vai ele, levando, nos pés sonsos de craque, a bola encantada do pai. Dinei, duas vezes Nei. Ressurreição de um talento infinito que o destino atirou pela linha de fundo.
Na sagração do Corinthians campeão brasileiro, Dinei, com a sua bola feiticeira, há de sair pelo campo, a recitar, parodiando o poeta Drummond:
- Tenho dois pés, uma bola e o sentimento do mundo...
Um flagelo de futebol
Engana-se quem pensa que a arbitragem é uma calamidade só brasileira. É mundial, mesmo. A Europa está perdendo a paciência. Erros como o impedimento imaginário que prejudicou o Corinthians, semana atrasada, ocorrem, aos montes, no futebol europeu.
Vai se tornando insuportável o dogma da infalibilidade do árbitro. Insuportável pra não dizer estúpido. No mínimo, que haja um segundo árbitro em campo, repartindo a vigilância hoje concentrada na figura solitária e soberana de um único juiz. Cada vez mais vulnerável. Cada vez mais catastrófico.
Ao mesmo tempo, é hora de repensar certas regras como o impedimento. Não há nada mais inadequada que essa norma absurda que obriga o bandeirinha a abranger, no mesmo relance, dois momentos: a execução do passe e a posição do jogador acionado. Como bem diz em editorial o semanário francês France Football, o futebol está precisando, mais que nunca, chegar o mais próximo possível da ilusória justiça absoluta.
A arbitragem já encheu a paciência de todo mundo.
Rápidas e rasteiras
- O virtuosismo no piano é como o drible no futebol - assim o pianista Arthur Moreira Lima (tricolor em dó de peito) define o floreio do piano, numa peça de Liszt. Trecho de uma conversa do artista com Fernando Sabino (do livro Gente, do dito Sabino).
- Pete Sampras entra 99 como o tenista nº 1 do mundo, ao longo de seis anos. É recorde. Ainda assim, não chega a ser considerado o melhor jogador da história do tênis. Nada menos de 20 ex-tenistas de renome, numa enquete de LEquipe Magazine, acham Sampras um portento, mas lhe negam o título porque, tendo conquistado Austrália, US Open e Wimbledon, ele jamais conseguiu ganhar Roland Garros.
- Joga em Portugal um atacante brasileiro de nome Deco. Segundo um leitor que mora em Lisboa, o moço é um talento. Saiu do Brasil, um desconhecido. Agora, é a coqueluche do futebol português. Está saindo de um time modesto pro Futebol Clube do Porto.
- Está no Brasil, recebendo sucessivas homenagens, o casal Antônio Carlos de Almeida Braga. Só quem os conhece sabe quanto o Braguinha e a Luiza apóiam os tenistas brasileiros espalhados pelos torneios da ATP, mundo afora. Não perdem um jogo de juvenil brasileiro, seja na Lapônia ou na Inglaterra.
- Logo quem o infarto vem matar? Admildo Chirol era uma pessoa de vida saudável. Cuidava-se como um espartano. O coração, além de forte, era generoso. Conheci-o, sempre, como um profissional exemplar. Matar de infarto, assim, de modo fulminante, o bom Chirol, é uma das maiores mancadas do destino.


