Para que tenhamos, hoje, o Corinthians x Cruzeiro que o Brasil merece, basta que as duas equipes estejam tão inspiradas quanto as vimos, domingo, no Mineirão. Nem o toró bíblico que desabou em Minas afetou o ar de recital que teve a partida, disputada com fervor e inteiramente a salvo de carrinhos e de outros percalços tão comuns ao futebol argentário de nossos dias.
O Corinthians leva uma razoável vantagem: tem a primazia de jogar, se não no seu campo, ao menos, na sua terra, amplamente inflamada pelo calor humano de sua ruidosa torcida. Sem esquecer o empate que é seu segundo trunfo, hoje. Em terceiro lugar, vem outra vantagem nada desprezível: a fadiga física e mental do time do Cruzeiro, de que já deu sinais na dura partida contra o Palmeiras (venceu por 2 a 1), no Mineirão, no meio da semana, em campo encharcado. Antes do calendário suspeito da CBF que, este ano, decidiu atropelar a tradição, enfiando pela goela do Campeonato Brasileiro a tal de Mercosul, deslavado caça-dólares, inventado só pra encher a burra de promotores vorazes.
Enfim, a bola (cheia) está com essas duas belas equipes, ambas muito bem dotadas, seja pelos naipes de craques, em campo, seja pelo comando cerebral de Luxemburgo e Levir Culpi, dois técnicos de notória competência. No mais, é rezar pela sorte do árbitro e seus bandeirinhas, dos quais depende - e muito - um jogo de envergadura como esse Cruzeiro x Corinthians.
Mal dirigida, a récita pode muito bem ser um luxo ou um lixo.
Jogando o caxangá
Fábio Junior é um bom atacante. Sabe fazer gol e sabe, também, dar um passe de meio gol, como bem o provou, domingo passado, pondo aos pés de Muller a bola madurinha do primeiro do Cruzeiro. Tem o verdor dos 20 anos e um porte atlético privilegiado. É da mesma linhagem de Ronaldinho, com uma virtude a mais: cabeceia com engenho e arte, dom sabidamente nada familiar ao repertório de Ronaldinho.
Leio nos jornais que Fábio Junior vai ser tutelado pelo triunvirato que administra a carreira de Ronaldinho, os conhecidos Pitta, Alexandre Martins e o italiano Branchini.
Aleluia, Fábio Junior! Em pouco tempo, serás muito rico, terás fama planetária, ganharás o título de melhor jogador do mundo. Cairá nos teus braços uma loura, filha da aurora boreal. Serás capa de revistas. Venderás pelo mundo a fora xaropes de juventude, camisetas, excursões a Marte, guloseimas e óleos de bronzear. Entre um comercial na Patagônia e a inauguração de uma discoteca, terás chance de bater uma bolinha pelo clube no qual reinarás, na cabeça, a coroa já cravejada de espinhos da fama desmedida.
Até que um dia, tua cabeça pirará de vez. E desandarás a tremelicar. E desabarás de ti mesmo em tempestuosas convulsões. Protesto de um jovem corpo cruelmente mercantilizado.
Ronaldinho era uma inocente criatura, exatamente como és tu agora. Tal qual te vejo, em campo, dando o teu radiante recado de bom peladeiro.
O que dele fez o triunvirato? Ronaldinho foi convertido num rendoso produto, uma pessoa jurídica, espoliada, um quase fantasma sugado até a última cartilagem. Escravo de Jó, jogando o atroz caxangá dos mercadores do futebol.
Te cuida, Fábio Junior!
Visão ultraleve
A andorinha não se indaga
se age certo quando voa
inventando artes pelo céu
só pra distrair o vento
Rápidas e rasteiras
- A profecia é de Ricardo Gomes, ex-capitão, ex-técnico do PSG, de Paris: ‘‘O sonho do PSG é ter Raí como presidente do clube. Mais dia, menos dia, isso vai acontecer.’’
- O Opportunity avaliou a marca Flamengo em 300 milhões de dólares. A gestão Kleber Leite só admitia conversa em torno de um bilhão. Não sou do ramo, mas, a julgar pelo ranço amadorístico do futebol brasileiro, nenhum clube nosso pode ser cotado acima de 300 milhões. Até porque não se pode fazer conta, isoladamente. De que adianta profissionalizar, pra valer, um time, se os demais continuarem na mesmice reinante?
- O corintiano Vampeta, se não tiver jogo de cintura, vai penar em campo com as gozações que virão. No chamado ardor da disputa, haverá, sempre, alguém querendo tirar um sarro por essa história de posar nu em pelo numa revista ‘‘gay’’.
- Oldemário Touguinhó outra vez, na minha estante de livros, com a obra intitulada Maracanã. É a saga do maior estádio do mundo, narrada por quem o viu nascer, crescer e se consagrar como o mais celebrado dos templos do futebol.
- A Liga Japonesa de Futebol está michando. Pressinto que nossos amigos vão acabar voltando ao beisebol, esporte que aprenderam a jogar com o general Mac Arthur, durante a ocupação americana, na Segunda Guerra Mundial. Aliás, nada tenho contra o beisebol, mas aí está um esporte, pelo menos pra mim, sem um pingo de graça: um bando de marmanjos brincando de chicotinho queimado.

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