Na Grande Área (Armando Nogueira)
Na Grande Área (Armando Nogueira)
Dois sonhos,
um abismo
Enquanto o Corinthians refresca a cabeça e o corpo, o Cruzeiro estará se esfalfando, hoje, noutra final, igualmente estafante - a Mercosul, contra nada menos que o Palmeiras. E meus amigos mineiros ainda acham que batalhar em duas frentes é bom pro Cruzeiro. Dizem que um jogo atrás do outro incendeia mais a equipe. Pois sim!
Se o Cruzeiro se der bem nessas duas finais, então, Minas pode proclamar, com carradas de orgulho, que tem, longe, o melhor time do Brasil. Um supertime.
Quem viu o jogo de domingo me faz a pergunta que tenho ouvido até mesmo de quem não viu: como pode o Cruzeiro fazer 2 a 0, em casa, embalado por 100 mil torcedores, e, num abrir e fechar de olhos, deixar o adversário empatar? Em primeiro lugar, todo mundo está cansado de saber que 2 a 0 é o tipo de placar traiçoeiro. Com medo da goleada, o perdedor acaba virando leão. Em segundo lugar, vem a grande verdade do jogo: quando o Cruzeiro fez o primeiro, o Corinthians já era o senhor do campo, mandando na partida. O segundo gol, o gol da euforia, mesmo, chegou cedo demais. Tão cedo que nem deu pra abalar a autoconfiança do Corinthians. Pelo contrário, despertou-lhe mais ânimo. E, como já vinha sendo bem melhor, o Corithians chegou ao empate com sobra de merecimento.
E por que terá sido o Cruzeiro tão diferente, comparado com as recentes partidas, nas oitavas, nas quartas e nas semifinais? Durante o jogo, fiz as seguintes anotações: a) o campo encharcado prejudicou, sensivelmente, uma das principais armas do Cruzeiro, que é o passe curto, a tabelinha milimétrica, em alta velocidade, executados por Muller, Valdo, Djair, Marcelo Ramos, Marcos Paulo e Fábio Júnior; b) A improvisação de Gustavo, um destro, na lateral esquerda, tentando, sem êxito, substituir o titular Gilberto, suspenso; c) a atitude do time do Corinthians, de quem se esperava cautela e de quem só se viu destemor. No primeiro minuto, o Corinthians já atacava, de peito aberto, dando as cartas da partida; d) a falta de concentração, típica, por sinal, de uma equipe que está mentalmente dividida entre duas competições do mais alto nível: o Brasileiro e a Mercosul.
Tenho lido e ouvido também que não há inconveniente em jogar duas competições simultâneas. Pois gostaria de registrar que não estou sozinho nessa história. Acabo de saber que, mesmo antes do jogo de domingo, Levir Culpi já temia pelo cansaço de sua equipe, justamente por estar disputando a Mercosul e o Campeonato Brasileiro. O preparador físico Odilon Guimarães vai mais longe: diz que o jogo de hoje vai esfalfar demais os jogadores que já se consumiram domingo e vão ter que pegar o Corinthians, de novo, no próximo domingo.
E notem bem: se antes era refresco, agora é sopa de pedra. O caldo vai engrossar pro lado do Cruzeiro: hoje, pega o Palmeiras, domingo, o Corinthians. É receita sob medida pra enterrar, no mesmo caixão, dois sonhos.
O lobo e a matilha
Ignoro o que Wanderley Luxemburgo e a psicóloga dona Suzy terão dito a seus jogadores, nas preleções da semana. É possível até que nada tenham dito, em termos simbólicos, pra motivar a equipe. De qualquer modo, o time do Corinthians revelou, no Mineirão, uma força mental inabalável. Sem um forte alento psicológico, time algum emerge do fundo do poço como emergiu o Corinthians, mergulhado nos dois a zero do Cruzeiro. Ali, a mente governou o corpo, decisivamente.
Conheço exemplos de preparação mental que têm produzido verdadeiros prodígios. Maria Helena, do basquete, já ganhou muito campeonato motivando sua equipe com parábolas milagrosas. Uma delas é a revoada dos gansos canadenses. Meses a fio, Maria Helena martela na cabeça das moças a parábola da dança dos gansos pra estimular a ação coletiva. Os gansos voam milhares de quilômetros, graças à divisão de trabalho que reparte irmanamente esforço e fadiga. Todos se revezam entre o vácuo e o arrasto.
O treinador Phil Jackson, do Chicago Bulls, levou sua equipe a um belo tricampeonato da NBA, lendo, antes de cada jogo, um trecho do Segundo Livro da Floresta, de Kipling, que diz o seguinte: Esta é a lei da Floresta - tão antiga e verdadeira como o céu; E o Lobo que a guardar, prosperará, mas o Lobo que a ignorar, morrerá. Assim como a trepadeira que reveste o tronco da árvore, a Lei corre para frente e para trás - Porque a força da Matilha está no Lobo e a força do Lobo é a Matilha.
Rápidas e rasteiras
- Dinei, no banco, enquanto Didi, em campo, não vem ao caso. Inexplicável, não? Na verdade, talvez Luxemburgo tenha razão: dispor de um jogador de estilo completamente diferente do estilo do titular pode, se bem lançado, transtornar a vida do adversário. Principalmente quando se trata de um Dinei, atacante de boa técnica e que parece não se abater pela suplência. Dinei tem provado que senta no banco, sem ressentimentos.
- Luis Carlos Barreto mostra, amanhã de manhã, pros amigos, o filme Aventuras de Zico, tendo o próprio Zico como ator principal.
- No júri de elite da Bandeirantes, domingo, Paula. Cada vez mais bonita, e, como sempre, brilhante. Fala de futebol com a mesma categoria com que se exprime, falando (ou jogando) de basquete.
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