Na Grande Área (Armando Nogueira)
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de dezembro de 1998
Corinthians e Cruzeiro 
Pensando bem, duas equipes podem se dar bem, hoje, na decisão da série semifinal: Corinthians e Cruzeiro. Não pela vantagem do empate, por sinal, respeitável, mas é que ambos têm trunfos técnicos que Santos e Portuguesa não têm. A Portuguesa, a meu ver, vive momento mais promissor que o Santos: venceu a última partida, coisa que a deixa bem mais confiante. Joga com a escalação ideal e sob a inspiração de Evair, que é um dos donos da grande área rival cuja propriedade já conquistou por usucapião. Vejo o Santos um tanto enfraquecido, mental e tecnicamente, por conta do que se passou na última partida. Será um adversário tenaz, sem dúvida, mas ninguém sabe até que ponto Argel e companhia serão capazes de suportar a carga emocional de mais um jogo decisivo, contra o temível adversário.
Sob o plano técnico, a perda santista é ponderável. Joga sem a peça mais lúcida (taticamente) e mais dinâmica da criação de jogadas ofensivas, o temperamental Narciso. É como se o Corinthians entrasse, hoje, sem Vampeta. O time do Santos fica meio sem bússola.
O Corinthians parece ter reencontrado a senha do quadrado mágico formado por Rincon, Vampeta, Marcelinho e Edilson. Dos quatro, o menos efetivo tem sido Marcelinho, a quem vejo ainda muito aquém do nível que o alçou à condição de astro do time, antes do arranca-rabo com Luxemburgo. Em compensação, os outros três, notadamente Vampeta e Rincon, estão em forma esplêndida, coadjuvados pela vitalidade do lateral Silvinho. Edilson é aquele saci que as defesas só abatem com o recurso ilícito das faltas sobre faltas. Se o pé de Marcelinho estivesse calibrado, como dantes, o Corinthians já estaria tirando melhor partido da encapetada leveza de Edilson, o mais célere dos baianos vindos das babas de Salvador.
Por fim, falarei do Cruzeiro, a mais cintilante equipe das quatro semifinalistas. Consistente lá atrás, com um goleiro soberbo, uma zaga vigilante e de boa técnica - o capitão Wilson Gotardo está para o Cruzeiro como Mauro Galvão está para o Vasco. Da meia-cancha pra diante, a bola tem mais é que celebrar a convivência com o tirocínio de Djair, somado à assombrosa antevisão de Muller. E, na zona de tiro, Fabio Junior e Marcelo tornam irresistível o poder de fogo da equipe.
O Cruzeiro é de encher os olhos. Se um dia sua equipe entrar em campo de camisa cor-de-laranja, com aquele toque de bola, todo mundo vai jurar que é a própria seleção da Holanda. Sem tirar nem por.
Cabecear é preciso
Gol de cabeça tem sua majestade. Sempre me impressionou a capacidade dos grandes cabeceadores, como o atual artilheiro do Santos. Atlético, aparentemente, pesadão, Viola tem impulsão de leopardo. Vai ver, ele nem sobe tanto assim. Vai ver, sobe no tempo certo. Como subiam também Baltazar, o Cabecinha de Ouro, igualmente corpulento, claramente volumoso. Porém, quando saltava, parecia uma sílfide. O húngaro Kocsis, artilheiro do Mundial de 54, testava a bola com elegância. O gesto sugeria leveza de balé: Kocsis era esguio, longilíneo. O golpe, porém, era agudo e preciso. Como os de Fábio Junior, legítimo sucessor de Ronaldinho na equipe do Cruzeiro - com uma virtude que o outro não tem: cabeceia como poucos.
Em todos eles, um traço comum: o senso de oportunidade. É como se o cabeceador tivesse uma senha com a bola. Ficamos assim combinados: é ali, naquele ponto, haja por lá quantos adversários houver. E se a bola cumprir a palavra, é mais um gol que sai. O caso mais exemplar de mútua fidelidade à palavra empenhada era a dupla Pelé-bola. Par constante.
E ninguém pense que seja sopa acertar o gol, mesmo havendo um código secreto entre o jogador e a bola. Quase sempre, o cabeceador tem que mudar sensivelmente a trajetória da bola. E é aqui que reside o precioso segredo da exatidão. No tênis, esporte no qual o atleta lida com uma bola sempre-viva, duro é modificar o curso da bola. Transformar uma cruzada em paralela, por exemplo. O cabeceador enfrenta o mesmo desafio. A bola vem faiscando, um meio-centro paralelo à linha de fundo. De repente, surge um Viola e imprime à bola um desvio de 45 a 90 graus.
Parodiando o poeta, direi que cabecear é muito preciso.
Rápidas e rasteiras
- Quem não se delicia com a classe da criação e das edições das chamadas promocionais da Globosat? Eu me amarro. Pois, agora, Roni e sua equipe, artistas da casa, foram distinguidos com o Prêmio da Promax, uma feira de promoções e marketing para veículos de comunicação, anualmente realizada nos Estados Unidos.
- A revista British Journal of Sports Medicine publica longo estudo sobre as principais causas de lesões no futebol. Dois gestos se destacam na conta sombria das contusões: o carrinho e a cotovelada. A revista cobra da FIFA medidas mais radicais contra a violência. Quer dizer: os médicos ingleses não sabem com quem estão falando. A FIFA conhece a dimensão do problema mas, até hoje, não qualificou devidamente a arbitragem, que continua refém da indisciplina.
- Por falar em violência, o carrinho-voador de Narciso em Marcelinho, domingo passado, é uma afronta não apenas ao futebol mas à própria convivência humana. Uma brutalidade. Impensadamente, mas, ainda assim, chocante.


