Na Grande Área (Armando Nogueira)
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de dezembro de 1998
O Vasco e o Cruzeiro 
Há dias, escrevi que achava imprudência o Cruzeiro se empenhar, ao mesmo tempo, em duas frentes, ambas cabeludas: o Brasileiro e a Mercosul. A fadiga pode comê-lo inteirinho pelas pernas. Dito o que, meu bom Sérgio Noronha usa o exemplo do Vasco pra discordar da minha visão. Acha que se o Vasco tivesse jogado mais e treinado menos, não teria sido tão moroso, tão ausente na final com o Real Madrid. De fato, o Vasco poupou-se demais, física e tecnicamente. Em compensação, estafou-se psicologicamente.
O Cruzeiro corre risco de naufragar por excesso de jogo. O Vasco, talvez, tenha perdido também por excesso de jogo. Explico melhor: o erro do Vasco da Gama foi ter se deixado levar demais pela partida contra o Real. Jogou-a sem trégua, mentalmente. A colina inteira levou os últimos meses dormindo, comendo, sonhando, acordando com o título de campeão do mundo.
Não sabia, nem queria pensar noutra coisa. Talvez nem tenha cogitado, a fundo, da existência de um adversário. Seu único adversário era o tempo, que custava a passar. Ora, não há quem sobreviva, incólume, a tamanha expectativa. A obsessão turva a mente, estraçalha os nervos, emperra os músculos. A psicologia do esporte está cheia de casos semelhantes ao do Vasco, vítima, a meu ver, de uma verdadeira overdose de ansiedade. A motivação, que dá o sal a qualquer competição, volta-se contra o homem quando descamba pra ansiedade. Efervescência demais destempera a alma da pessoa.
Dá-se no esporte exatamente o que se dá no jogo do amor. Motivação, quanto mais, melhor; ansiedade, quanto mais, pior. Motivação, tensão bem dosada, levanta o ego; ansiedade, tensão exacerbada, ao contrário, derruba o ego e o que mais seja. O Vasco me lembrou o garotão que passou a semana toda fantasiando o encontro com aquela deusa, um espanto de mulher que lhe caiu do céu, num ensolarado flerte de praia. Quando chega a hora H, sôfrego, o moço cai do cavalo, traído pela ansiedade. Faz um péssimo primeiro tempo. Recupera-se um pouco no segundo tempo, mas, aí, já é tarde demais. O jogo já está irremediavelmente perdido.
Não basta ser infeliz


