A final de Tóquio, em poucas palavras, foram dois lances esplêndidos. Um, de Felipe, sem desfecho feliz, o outro, de Raul, que acabou dando em gol - e de vitória. Dois momentos soberbos pra memória da decisão do Mundial de Clubes. O título é do Real Madrid, com devido merecimento, mas poderia, perfeitamente, estar, agora, com o Vasco da Gama, que, mesmo sôfrego demais, andou perto, muito perto do segundo gol, antes do golpe de misericórdia desferido pelo espanhol Raul. Por sinal, que portento a sucessão de dribles - dribles, secos, incisivos, executados friamente, na boca do gol!
O primeiro tempo foi todo ele comandado pelo Real, com seu par de grandes volantes: Seedorf e Redondo. Os dois deram o tom da equipe espanhola. Espanhola, sim, mas hoje, de nítido acento holandês. Hiddink, o técnico do Real, já impôs ao fogoso futebol de Espanha o belo padrão de jogo holandês. Ver o Real, ontem, era o mesmo que rever a seleção da Holanda, no Mundial da França. Estilo balanceado, ações coletivas, muita troca de passes, circulação da bola e lançamentos agudos pra Sávio, Mijatovic e Raul.
Roberto Carlos, se não foi a figura do jogo, acabou sendo o astro da tevê. A câmera deu-lhe tratamento de galã, mostrado sempre em plano fechado. Há muito que eu não via o famoso lateral jogar tão bem e com tanto fervor. A tal ponto que o simpático Casagrande, na transmissão da Globo, lamentou que Roberto Carlos não tenha tido o mesmo ranger de dentes quando defendia a seleção do Brasil na Copa do Mundo. Uma reação que me soou como patriotada.
Casagrande falou com paixão verde-amarela e não com a objetividade de comentarista. O Roberto Carlos do Mundial estava claramente fora de forma física e técnica. Mal, aliás, de que padecia, então, toda a Seleção Brasileira. Muito discreta a presença de Ramon e Juninho, justamente as duas peças da criação vascaína. Terão sofrido o peso da decisão? Terão sido bem marcados? Prefiro a primeira hipótese. A câmera mostrava, em ambos, um semblante carregado de tensões. Não é fácil um jovem conseguir segurar a mente numa final à qual o Vasco devotou meses e meses de intensa expectativa. Quem conhece o valor da equipe do Vasco sentiu que a ansiedade predominou sobre a motivação. Tanta espera acaba dando nos nervos.
Sob esse aspecto, o time do Real foi superior, mesmo quando acuado pelos ímpetos vascaínos. Numa síntese, o sangue-frio de Redondo e Seedorf derrotou a ansiedade de Ramon e Juninho.
Na cruz dos caminhos
E não é que o Cruzeiro vai, mesmo, cometer a imprudência de querer chegar à final da Mercosul, no momento em que pode chegar, também, à final do Brasileiro? Sei que o futebol é um tremendo exercício de incertezas, mas o Cruzeiro deve pensar que talvez não dê pra disputar, simultaneamente, duas competições de tal envergadura. O desgaste mental e físico pode levar a equipe a naufragar duas vezes.
Imaginemos que o Cruzeiro passe pelo San Lorenzo, hoje, e, domingo, passe, também, pela Portuguesa. Teremos, então, a equipe de Levi Culpi batalhando em duas frentes gigantescas: uma, contra o vencedor de Santos x Corinthians; outra, contra o Palmeiras. Dois playoffs, duas colossais pedreiras.
Rápidas e rasteiras
- Um bom negócio: depois que assinou contrato com a Nike, o Barcelona aumentou quatro vezes a venda de camisas, só na Espanha.
- Nuzman avisa: ‘‘Nos jogos de Sidney, a Austrália vai arrasar. É a nova Cuba olímpica’’.
- Renato Pacote, atento amante de todos os esportes, reclama uma terminologia brasileira pro tênis. Desagrada-o expressões com ‘‘topspin’’, ‘‘torehand’’, ‘‘backspin’’, ‘‘backhand’’, ‘‘smash’’, etc. Não seja por isso: ‘‘forehand’’ passa a ser direita, ‘‘backhand’’, esquerda, ‘‘topspin’’ vira efeito-a-favor, ‘‘backspin’’, efeito-contra. E o ‘‘smash’’? Nesse caso é só aportuguesar: ‘‘esmeche’’, substantivo, ‘‘esmechar’’, verbo. Ficamos assim combinados, meu bom Pacote?
- O amigo leitor, por ventura, é aviador? Por ventura, toma Viagra? Saiba, então, que a pílula da impotência pode provocar um distúrbio capaz de levar o piloto a confundir o verde com o azul. Quer dizer, podes perfeitamente entrar voando, mar a dentro, crente de que estás em pleno azul do céu. É o que diz uma pesquisa do Departamento de Saúde Aérea dos Estados Unidos.
- O técnico Leão concorda comigo: há jogador que provoca o terceiro cartão amarelo, de caso pensado, pra ganhar uma folguinha no fim-de-semana.
- Todo mundo sabe que o futebol é um jogo de conjunto. Mas, sabe também, que nem todo jogador encarna o sentimento coletivo do esporte. Seja por natureza, seja por estilo, alguns destoam. O caso mais notável do espírito coletivo, no campeonato, é o cruzeirense Valdo. É um deslumbramento ver jogar pra equipe esse fidalgo do jogo. Infatigável, clarividente.
- Participei, como mediador, de um papo de botequim, no projeto Mundão, do Sesc-Santo Amaro, em São Paulo. Em volta de mim, cercados de garotos atentos, Paulo Cleto, Kirmayr, Luis Mattar, Dácio Campos e Jayme Oncins. O assunto foi tênis, esporte no qual todos nasceram, cresceram e fizeram carreira. Gente fina, inteligente. Como se dizia na minha terra: todos bons de bico.

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