Como falar dos jogos de hoje se um jogo que já passou não passará jamais? Ou alguém pretenderá esquecer Cruzeiro x Palmeiras? Não só o derradeiro, mas os três juntos: o primeiro, o segundo e o terceiro. Verdadeira trilogia de confrontos esplêndidos. Por mim, se me dissessem que o campeonato terminou, ali, no 3 a 2 do Parque Antártica, eu já me daria por satisfeito.
Palmeiras e Cruzeiro acabam de engrandecer o futebol. Transformaram técnica em recital de arte: puro encantamento. Transpiraram fervor e luz no corpo-a-corpo da disputa: pleno arrebatamento. Compartiram da bola, enfeitiçada, com o mesmo sentimento de solidariedade.
A equipe do Cruzeiro, então, é um belo exemplo da virtude da simplicidade. Seus jogadores lapidam a bola, trocando passes como quem troca idéias, numa conversa inteligente. Sem um pingo de afetação.
Haverá nada mais simples que o futebol de Muller? Bola que se preze sente-se em casa, na companhia, ainda que fugaz, desse grão-senhor do futebol, em cujo passe se insinuam, sempre, insígnias de nobreza.
Quando Valdo foi expulso, a moça que assistia ao jogo ao meu lado, cristã nova, propôs que saíssemos pra jantar porque o jogo já estava decidido. O Palmeiras tinha saído das cinzas de um dois-a-zero pra um empate de autêntica ressurreição. Torcedor bissexto é assim: nunca ouviu o Chacrinha, a gritar, no palco, que o programa só acaba quando termina...
É verdade que, sem o Valdo, o Cruzeiro acabava de perder, ao mesmo tempo, a bússola, o termômetro, a régua, o compasso e a fita métrica de sua soberba ciranda. Encarnação da onipresença, Valdo é, na geometria do jogo, o ponto central da circunferência do Cruzeiro. Pois não é que a equipe mineira se transfigura e assume a aura de seu principal jogador, reluzente de brilho? Desponta, então, no campo, mais uma virtude dessa galante equipe do Cruzeiro: a bravura. Quando exercida com plena consciência, eis aí uma qualidade humana que se desdobra em perseverança. Aliada à técnica requintada, a coragem acabaria dando ao time do Cruzeiro a dimensão épica, privilégio das almas heróicas.
Se o verde do Palmeiras é a cor da esperança, o azul do Cruzeiro é, mais que nunca, a cor da perseverança. Azul do cristalino vazio e da plenitude celestial. Azul, de estrelas constelado. Cruzeiro do Sul, Cruzeiro de Minas. Não é de hoje que tu me emocionas.
A bola (cheia) do Vasco‘Se me dissessem
que o campeonato
terminou, ali,
no 3 a 2 do Parque
Antártica, eu já me
daria por satisfeito’
O profundo
azul dos campos

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