Na Grande Área (Armando Nogueira)
O renascer
da seleção
De amistoso em amistoso, vai surgindo a nova seleção brasileira, na era Luxemburgo. Como não há tempo pra trabalhar a equipe, o treinador faz o que manda o bom-senso: põe em campo o que temos de melhor e vai orientando o time, durante a partida: um toque aqui, um retoque, mais adiante.
Uma coisa já dá pra notar: zerou a monotonia. A seleção não é mais aquela, irritante, que jogava escravizada ao ritmo monocórdio da batuta de Dunga. Sempre achei falta de imaginação subordinar todas as manobras da seleção ao carimbo burocrático de um jogador tecnicamente limitado. Nada contra a autoridade olímpica que Dunga exercia em campo. Mas era simplesmente angustiante ver que tudo começava ou recomeçava pelos pés sempre tão morosos do capitão. Um marcador tenaz sem, contudo, a centelha do passe que surpreende e desequilibra.
Quem dá o tom, agora, é Vampeta, cuja desenvoltura relembra o estilo clássico dos grandes volantes do futebol romântico - com a vantagem do dinamismo e da versatilidade que distingue o volante moderno. Vampeta e Flávio Conceição, com funções semelhantes, dão rapidez à passagem da bola pelos caminhos da meia-cancha. Pra enriquecer, ainda mais, a construção de jogadas, os dois aliviam os laterais, que, assim, podem guardar energias pra despontar como verdadeiros pontas. É por aí que principia a transformação da equipe.
Enfim, vejo com bons olhos a montagem da nova seleção, com um poder de ataque de fazer tremer qualquer adversário. Os dois da frente, Élber e Amoroso, são dois pesadelos na defesa rival. Movimentam-se o tempo todo, criando pra defesa rival uma instabilidade permanente. O mesmo já não direi da zaga. Não por Cesar, que tem jogado bem, com clarividência e firmeza. A Cesar o que é de Cesar. Antônio Carlos, porém, Deus que nos acuda! Tem abusado da violência e parece não estar conseguindo ‘‘ler’’ o tempo da bola. Antônio Carlos não tem sido feliz no desarme do adversário; simplesmente, sai atropelando.
Procura-se um zagueiro, com urgência.
Vida entre dois pólos
Estou lendo a vida heróica e solitária de Amyr Klink. Sempre pensei que ele fosse um navegador de ardentes aventuras, mar a fora, mar a dentro. Enganei-me, redondamente. Amyr é um predestinado. Vai porque não pode, nem sabe ficar. Tem que ir-se. Assim como se vão o vento e outras invenções da natureza: o sol, o céu, a noite, a calmaria, a gaivota, a tempestade.
Amyr está de volta ao mar antártico em cujo silêncio glacial passou 22 meses em plena solidão. Vai buscar novos caminhos que navegar é sua sina. De seu diário, recolho singelas anotações de uma certa manhã de setembro de 90: ‘‘Sol tórrido, vento morto. De camiseta e óculos escuros, no convés, Tristão e Isolda, no último volume, comendo goiabada cascão com a ponta da faca, vendo fotos do Paratii nos trópicos e recitando Guilherme de Almeida, em código morse, em plena segunda-feira’’.
Montanhas de neve despencam. São os arrancos do inverno polar. Por perto, um único sinal de vida: uma foca, misteriosamente grávida.
No livro ‘‘Cem Dias Entre Céu e Mar’’, Amyr confessa recitando Fernando Pessoa: ’’... E para deante naveguei... / A alma é divina e a obra é imperfeita / Este padrão signala ao vento e aos céus / Que da obra ousada é minha a parte feita / O por-fazer é só com Deus’’.
Amyr Klink é simplesmente partir, é simplesmente chegar. Ele, e seu barco vermelho, de velas que enfeitam o vento.
Rápidas e rasteiras
- Atenção clubes brasileiros: acaba de ser criada, na Europa, a Associação de Clubes Europeus. São 14 clubes, tudo peso-pesado: Milan, Manchester, Ajax, Olimpique de Marselha, Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique - e por aí vai. É o que já foi batizado de G-14. Vai peitar a UEFA e a FIFA. Os clubes europeus não querem mais ser caudatários nem da UEFA, nem da FIFA.
- Gustavo Borges e Fernando Scherer assinam, como testemunhas, o contrato de co-patrocínio da Centrum com a natação brasileira. O outro patrocinador é a Empresa de Correios e Telégrafos. A conhecida vitamina americana escolheu a natação porque, segundo pesquisa, trata-se de um esporte muito querido do brasileiro. E mais: os astros da natação são o que se chama os ‘‘good boys’’ do esporte. Coaracy Nunes nada em águas de rosa.
- Um beijo e um abraço solidário à admirável Nélida Pinõn, tão sofrida com a morte de sua mãe.
- Tande e Giovane estão arrasando no vôlei de praia. Quem os tem visto jogar jura que a dupla irá a Sidney, no topo do ranking mundial. Quando decidiram optar pela praia, os dois foram ouvir Nuzman. Amigo de ambos, o presidente do COB deu força. Eis a avaliação de Nuzman sobre o futuro da dupla na areia: ambos são altos, ambos levantam muito bem, cortam muito bem, sacam muito bem, bloqueiam muitíssimo bem, defendem, idem, idem. Além de tudo isso, são amigos tipo corda e caçamba.
- Bernardinho voltou do Japão achando que não dá mais pra atual seleção de vôlei feminino. Como o técnico ficou aborrecido com o papel da equipe contra Cuba e contra Rússia, quero crer que Bernardinho tenha falado de cabeça quente. A equipe é forte, tem brio. Perdeu o Mundial, mas, antes, tinha sido campeã do Grand Prix em alto estilo. Vamos em frente, amigo!
- O técnico Leão concorda comigo: há jogador que provoca o terceiro cartão amarelo, de caso pensado, pra ganhar uma folguinha no fim-de-semana.
Correspondências para ‘‘Na Grande Área’’: Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - http://www.armandonogueira.com.br - E-MAIL: [email protected]

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