Nesses dias, a matemática tem roubado a cena no Campeonato Brasileiro. Números pra lá, números pra cá. Agora, porém, deitem fora as contas que a conversa é outra bem diferente. A rodada vai transcorrer, em todos os campos, no reino da subjetividade. Seja em Campinas, seja em Goiás, seja em Curitiba, em Porto Alegre, cada jogo será decidido por uma equação de sentimentos em que entram, em doses crescentes, corações e mentes.
Quando o esporte, especialmente o futebol, cai no plano do sentimento, vira epopéia. É o que vai ocorrer, amanhã, sobretudo nas batalhas de Paraná x Flamengo e Goiás x Vasco da Gama. Os quatro times jogam um tudo-ou-nada capaz de elevar a ansiedade a taxas astronômicas. Atlético-MG, Cruzeiro, Grêmio e Inter, igualmente, desafiados a vencer, vivem situações menos dramáticas psicologicamente, pois pegam adversários de sorte já selada. A Portuguesa, mesmo considerando seu peso atômico, há de ser menos indigesta pro Grêmio do que serão pro Flamengo e pro Vasco o Paraná e o Goiás, ambos com a corda no pescoço. Justamente quando se sente acuada é que a criatura humana se transfigura. O herói nasce do medo. O diabo é saber dominar a ansiedade. Por isso, falo tanto de coração e mente.
O mesmo raciocínio se aplica aos dois mineiros, Atlético e Cruzeiro. Ambos pegam adversários em relativa paz com a vida. Não é que terão leite e mel no seu caminho. Ponte Preta e Juventude ainda estão ajustando contas com a própria consciência. Mas nada se compara às duas pedreiras que terão de escalar o Vasco ultradesfalcado e o Flamengo, privado de Iranildo, que vive seu momento de esplendor.
Quem não sabe que, tecnicamente, os que lutam pra subir são melhores do que os que lutam pra não descer? É só ver os números. Sucede, porém, que o esporte, principalmente o jogo coletivo, nutre-se justamente do imponderável. Ansiedade, ardor, desejo são sentimentos que não se consegue aferir com fita métrica.
Se alguém insistir em contemplar a rodada com o olhar glacial dos matemáticos, não seja por isso: dou-lhe, de mão beijada, uma hipótese interessante que fui buscar na objetividade dos números: zero-a-zero, o árbitro apita. A bola rola sua própria circunferência. O jogo começa. Cinco segundos de partida. Subitamente, um clarão, um estrondo apocalíptico, treva medonha. O mundo se acaba. Matematicamente, estão classificados Atlético e Cruzeiro e rebaixados América de Natal, Bragantino, Paraná e Goiás.
Playoffs, só na próxima encarnação.
O salto das ‘chicas’

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