Na grande área (Armando Nogueira)
O Campeonato Brasileiro está caindo no arriscado terreno da matemática. As chances de cada time, agora, correm por conta das chamadas análises combinatórias. Algarismo pra cá, números pra lá. É um tal de telefonar pro Oswald de Sousa, pro Lauro Araújo. Eu, mesmo, volta e meia, ligo pra eles. Uma coisa, porém, deve ser dita: algarismo não tem alma. Raiz quadrada não chora. Nunca ouvi falar que o Binômio de Newton sofreu uma parada cardíaca.
A matemática tem razões que o coração humano desconhece, ignora. É só notar o que está ocorrendo, a essa altura, no Brasileirão. As equipes se distribuem em grupos distintos: os bem-aventurados, que são quatro - Palmeiras, Coritiba, Santos e Corinthians; os sonhadores, que vão da Portuguesa e do Sport, passando pelo Vasco, pelo Atlético Mineiro, pelo Inter e pelo Grêmio, até chegar à turma remota dos oito angustiados que são Flamengo, Vitória, Cruzeiro, Atlético-PR, Guarani, Botafogo, São Paulo e Juventude. Esses se debatem num mar tempestuoso: tanto podem acabar, a salvo, lançado numa praia, como podem ficar boiando como um balseiro ou até mesmo se afogar de vez...
Por fim, o grupo dos desesperados, já de todos conhecidos: Ponte Preta, Goiás, América Mineiro, Paraná e, já em queda livre, os abismais Bragantino e América-RN.
Esquece a matemática, amigo, porque, agora, valores mais nobres se alevantam. Quem podia esperar que o Flamengo, bafejado por quatro triunfos, fosse deixar em Natal três preciosos pontinhos? Pegou um América possuído de um entusiasmo heróico. Quem, à luz da lógica dos números, imaginaria dois ou três arrancos de fera ferida da Ponte Preta, que já parecia um desenganado à espera da extrema-unção?
Amigo, leitor, é aqui que entra a dimensão metafísica da condição humana, em nome da qual pode-se dizer que é mais fácil derrotar um bem-aventurado do que um time desesperado. Se alguém da turma do meio se aferrar às contas do professor Oswald de Sousa, pra concluir que tem vida fácil porque vai cruzar com um desesperado tipo Ponte Preta, América MG, está correndo o risco de quebrar a cara. Eu, se estivesse na turma do meio, prefereria, mil vezes, jogar, agora, contra um Palmeiras ou um Corinthians a jogar contra qualquer um dos excluídos. Quanto mais acuado se sente o homem mais se inflama de brio e dignidade o seu rejeitado coração. Da mesma forma, quanto mais vitorioso o homem, mais vulnerável. Inconsciente, os quatro classificados estão de guarda baixa. Quando o Palmeiras perdeu o jogo com o Botafogo, Scolari acusou seus jogadores de preguiçosos.
Diagnóstico perfeito. A vitória se espreguiça e boceja.
Violinos, fora!Esquece a
matemática,
amigo, porque,
agora, valores
mais nobres
se alevantam
Algarismo
não tem alma





