Já reparaste, leitor, como em todo jogo há gente expulsa de campo no futebol brasileiro? Não conheço uma só equipe, no campeonato nacional, que já não tenha tido, pelo menos, três a quatro casos de expulsão e outro tanto de suspensão por acúmulo de cartões. E o que é mais espantoso: quase sempre por motivos bobos. E olha que ainda estamos no meio da temporada. Na raiz do problema, dá pra alinhar ene razões: má arbitragem, violência pura, leviandade, descontrole emocional - e por aí vai.
A meu ver, a coisa começa, mesmo, é no diabo do paternalismo. O clube não tem uma política profissional na relação com o jogador. Ainda predomina um certo ar amadorista. A praxe é passar a mão na cabeça do indisciplinado. Quantas vezes já não vimos cartola a desancar árbitro por um cartão vermelho mais que merecido? Por acaso, alguém conhece caso de jogador castigado pelo seu clube por manifesta indisciplina em campo? Que eu saiba, só na Europa. Por aqui, a política é mimar, principalmente se o jogador é craque.
Com um dedinho de maledicência, eu fico tentado até a admitir que, em certos momentos, o jogador é que provoca deliberadamente a exclusão sumária ou o duplo amarelo. Seria forma de libertação. Ficar pendurado um jogo acaba sendo uma chance que tem de respirar na vida. O sujeito joga dia sim, dia não. Treina a semana inteira. Viaja feito um cigano. Não tem tempo pra curtir a família e muito menos os amigos. Sabe - ninguém é trouxa - que o calendário asfixiante é coisa de cartola mancomunado com empresário: direitos de televisão, merchandising, placas no estádio. É dinheiro entrando pela porta da frente, pela porta dos fundos. E o jogador, sulancando, sugado até os ossos. Quando não lhe atrasam o salário, atrasam o bicho. Atrasam a vida.
O jogador deve pensar, humanamente: que diabo, de vez em quando, uma expulsãozinha até que me cai bem...
Flor de melancoliaArmando Nogueira
O jogador, às
vezes, provoca
a expulsão para
respirar na vida
Expulsões são
um bom negócio

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