Correspondências para ‘‘Na Grande Área’’: Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - http://www.armandonogueira.com.br - E-MAIL: [email protected] Nogueira
A descoberta
do Brasil
É verdade que a seleção do Equador é tão imaginária quanto a linha que divide o planeta em dois hemisférios. Mas, o amistoso de Washington, pelo qual eu não dava um vintém, teve o proveito de apresentar aos brasileiros um jogador de respeito: o paranaense Élber. De Londrina para o mundo! Que presença na área tem o rapaz. Bem que Franz Beckenbauer, antes da Copa, vivia dizendo a Hans Henningsen: ‘‘O Élber devia estar na seleção do Brasil’’.
Se bem me lembro, quando Romário estava pra ser cortado, por distensão na panturrilha, Zagallo mandou telefonar pra Élber recomendando que ficasse alerta. A qualquer momento, ele poderia ser convocado. Romário saiu, mas o escolhido não foi Élber, artilheiro como Romário. Escolheram o Emerson. Ninguém entendeu nada. Nem o Beckenbauer, nem o próprio Élber e, muito menos, o Emerson que não frequenta a mesma paróquia dos goleadores.
Hoje, Élber é o líder no ‘‘ranking’’ dos melhores jogadores do campeonato alemão e é o maior ídolo do Bayern de Munich, do qual é presidente o ‘‘Kaiser’’ Beckenbauer. A história de Élber no futebol começa na equipe do Londrina, de onde um dia, foi levado pra Suíça pela mão de agente de turismo ou coisa que o valha. Era, então, um guri de 17 anos. Chegou a jogar o mundial junior, quando o Brasil perdeu a final pra Portugal. A rigor, não chegou a descobrir o Brasil, nem o Brasil chegou a descobri-lo direito. Jogou no Grasshopper, andou pelo Milan, que o considerou muito verde e o devolveu à Suíça. Deu tão certo no Zurick que de lá, transferiu-se pra Sttutgart. Por fim, foi cair nos braços do Bayern de Munich, onde é tratado como um príncipe. Faz gols a rodo, fala fluentemente o alemão, o que me deixa roído de inveja porque pode ler Goethe no original. Nem sei se tem o gosto de ler.
De fazer gol, eu vi que tem. Os três que fez contra o Equador foram de soberba intuição. Élber tem a centelha dos grandes artilheiros. Faz gol sem a menor cerimônia. É mercurial como Romário.
Nesses tempos de hibernação que vive Ronaldinho, Élber é o que de melhor podia acontecer à Seleção.
A pândega do futebol
O ano de 98, vou te contar. A CBF não acerta uma. A Seleção cai do cavalo na Copa; Ricardo Teixeira cai do cavalo, na fazenda; Gilberto Coelho cai do cavalo na briga com Eurico Miranda. Entre a dura realidade de um fêmur quebrado e a tentação da metáfora, um fato é inegável: o futebol brasileiro tem sido uma pândega sem fim. Patuscada, sim, mas que faz a alegria do bolso de muita gente sem escrúpulos.
Ano que vem, queira Deus ou não queira, os cartolas vão espichar o calendário. Em vez de 365 dias, o ano passará a ter 600 dias. Assim, haverá datas de sobra pra encaixar o campeonato regional, o Brasileiro, a Copa do Brasil e o resto: a Commebol, a Mercosul, a Libertadores, o Rio-São Paulo, os caça-níqueis da Seleção. Aí, a televisão vai pagar uma fortuna pelos direitos de transmissão. Aí, os espertos ficarão com o deles. Aí, outros espertos faturarão na venda de placas. E todos eles continuam a viver na opulência. Aí, impotentes diante de tanto despudor, só nos resta tocar um tango argentino, em memória de Manuel Bandeira que, há 30 anos, deixava este mundo pra ir deleitar, com sua poesia, o reino do Senhor.
A torre dos anjos
Santa Clara, clariai! São Domingos, alumiai! É o que diz o canto do povo, clamando por bom tempo. Principalmente, pros pescadores e pros aviadores. Na ala dos aviadores, é preciso lembrar o papel do controlador de vôo. Ele é o guardião da segurança de milhões e milhões de pessoas que, a todo momento, cruzam os céus no mais fascinante meio de transporte que o homem já inventou: o avião.
Depois de amanhã, celebra-se o Dia do Controlador de Vôo. Só quem voa de fone nos ouvidos é capaz de saber como é valioso o trabalho de um operador numa torre de aeroporto. Sem a acuidade, sem a competência, sem a dedicação dessa gente, viajar de avião seria pra qualquer criatura condenar-se, na certa, a morrer numa colisão. Sem erro. É o controlador de vôo que ordena o enxame de aviões, espalhados, aos milhares, pelo espaço aéreo do planeta. Espaço, hoje, absolutamente congestionado, seja nas rotas, seja no céu das cidades. A tal ponto que, em nome da segurança, o ar do mundo está fatiado em aerovias, em corredores, em portões aéreos, em prateleiras. E é bom avisar que, lá em cima, não existe meio-fio, nem garagem, nem carro-reboque. É bater e descansar em paz.
É o controlador de vôo que vela por todos nós, um olho no radar, outro, na linha do horizonte. Ele é o verdadeiro anjo-da-guarda de todos, passageiros e aviadores. Falo na condição de piloto esportivo que atingiu uma certa maioridade aeronáutica e que vive, agora, de head phone nos ouvidos, voando por aí, a pedir a benção a todo operador de vôo encerrado na sua torre. Torre que nunca foi de marfim. Pelo contrário, sua torre é da mais pura transparência celestial. Que o diga o respeitável comandante Penteado do alto de seu ‘‘boeing’’ 747!
- Torre de Jacarepaguá! Uniforme QUATRO - OITO - MEIA - MEIA!
E o operador, digo, o anjo-da-guarda, vai me dando, de mão beijada, todas as dicas pra tornar cada vez mais seguro e mais feliz o meu vôo de urubu.

mockup