Na grande área (Armando Nogueira)
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de outubro de 1998
Armando Nogueira De encher os olhos 
O Santos alcança a liderança do Campeonato Brasileiro. A essa altura, já dá pra afirmar que o Santos tem cara de timinho, mas, longe disso, o que ele tem sido mesmo, é um time de respeito. Sem estrelismos. Transbordante de entusiasmo. Obstinado. Só pra dar uma idéia: há dias, ao fazer o quarto gol, na Ponte Preta, a equipe do Santos tinha, na pequena área, quatro jogadores, todos de bala na agulha pra concluir a jogada se o ator principal rateasse. Sinal de que a equipe nunca se desliga do jogo, nem mesmo com o triunfo amplamente assegurado. E é aí que se vê o dedo do técnico. Leão não permite que sua equipe deixe cair a peteca.
Três minutos depois, outro flagrante, esse ainda mais significativo: um solitário jogador da Ponte Preta domina a bola perto da lateral, ainda na linha divisória. Dali, não haveria a mínima chance de ameaça à área do Santos. Pois bem: num segundo, o moço estava cercado por três santistas, todos lutando pra desarmá-lo, coisa que acabariam conseguindo com grande aplicação. Note-se que o jogo já estava terminando. O Santos vencia por 4 a 0.
Das palavras às cifras. Vejam só a riqueza do cartão de visitas do Santos: tem a melhor média de gols por jogo: 2,2. Sofre menos de um gol por partida; Precisamente, 0,9. E faz 2,2. Tem 75 por cento de aproveitamento. Ou seja: em 45 pontos, venceu 34. Tem o melhor ataque: 33 gols; tem a segunda melhor defesa, atrás, apenas, do Sport Recife. Tem o melhor saldo de gols: 19. É quem mais vezes venceu fora de casa: cinco partidas. Tem, nos 13 gols de Viola, o artilheiro do campeonato. Enfim, é uma equipe que enche os olhos. Salve o time do Santos, com sua bola cheia de meninos em plena floração.
O sumiço de Fernanda
Tenho, no meu guarda-roupas, uma coleção de camisas, todas autografadas com dedicatórias mais que amáveis. São troféus que ganhei de heroínas do vôlei e do basquete e que, um dia, haverão de ilustrar as vitrinas de um museu do esporte. Devidamente emolduradas, é lógico. Afinal, não são meras peças de roupa compradas em balcão. São ícones imantados de suor e soluços.
Há dias, estendi minha coleção num varal improvisado pra que tomassem um pouco de ar e de sol. São, ao todo, sete fulgurantes camisas. Cada uma mais lendária que a outra. São sete mitos.
Eu disse sete, mas só vejo seis. Onde estará a outra? Em casa de homem que vive só acontecem mistérios assim. As coisas, sagradas ou não, somem, como por encanto. Não é que me levaram a camisa de Fernanda Venturini? Logo de quem!
Rápidas e rasteiras
- Só mesmo um fim-de-semana de mil compromissos me impediu de estar em Santa Catarina pra ver, de perto, Brasil x Romênia da Taça Davis. Azar de quem não pode passar um ou dois dias no paraíso de Costão do Santinho, em Florianópolis, reinado de meu bom Paulo da Costa Ramos.
- Carlos Alberto Parreira vai implantar um projeto de formação de técnicos de futebol na Universidade Estácio de Sá, no Rio. Pra refazer uma dobradinha que deu certo, Parreira levará com ele o técnico Zagallo.
- Zinedine Zidane, falando à revista inglesa World Soccer, esta semana: Tenho uma explicação muito simples pros dois gols que fiz na final: saltei pra cabecear cheio de confiança porque sabia que a defesa brasileira tinha acessos de amnésia quando a bola vinha pelo alto.
- Estou devendo um agradecimento ao advogado Carlos Miguel Aidar que me abasteceu de rico material pra uma palestra que fiz em São Paulo sobre gestão empresarial no futebol. Gratíssimo, velho amigo.
- Sexta-feira passada, Renata Cordeiro e eu entrevistamos no Esporte Real o jornalista Renato Maurício do Prado, que está lançando Deixa que eu chuto, um livro de gostosas anedotas sobre o mundo do esporte. Um exemplo: bola na entrada da área, uma tremenda confusão. De repente, apagam-se as luzes do estádio. Cinco minutos de breu completo. Volta a luz, o repórter pergunta ao árbitro qual o desfecho da jogada. Gol do Joca, responde o juiz. Como gol, se ninguém viu nada, estava tudo escuro? E o juiz, sem hesitação: Dali, o Joca nunca perdeu um gol... O Joca era do time da casa.
- Confirmado: Paula, o prodígio do basquete feminino, vai falar de cadeira num programa do Sportv. Não só de basquete. Se for futebol, Paula também traça.
- Creatina é o nome da moda na medicina esportiva. Dizem que é um inofensivo suplemento alimentar. Sucede que todo mundo está abusando. A creatina aumenta a massa muscular e redobra a explosão do atleta. Mais dia, menos dia, a creatina vira persona non grata do Comitê Olímpico Internacional.
- Desafeição no futebol: não convidem para o mesmo jogo Zagallo e Carlos Alberto Torres. Os dois querem se comer vivos.
- Guga é um exemplo de ídolo que prefere viver de pé no freio, em matéria de dinheiro. Moço, já com um respeitável pé-de-meia, Guga tem uma vida espartana. Em dois anos, o garoto só gastou, em supérfluo, mil reais. Comprou um Walk-man incrementado. Os pródigos do futebol, que vivem atirando dinheiro pela janela, podiam tomar umas lições de comedimento com o garotão Guga.


