O Feitiço contra o feiticeiro

O Bahia. Estou pensando no vacilo do Bahia. No meio da semana, o clube deixou de lado a feitiçaria, a religiosidade e entregou seu rebanho ao professor Roberto Shinyashiki que é uma espécie de pastor de mentes e corações. Foram horas e horas de pregações pra reanimar o abalado moral da tropa.
O diabo é que o papo desses mestres de receitas de sucesso é um tanto escalafobético. Eles costumam citar o lendário castigo de Sísifo, o que, na concentração, é grego puro. De repente, eles gostam, também, de mandar um provérbio de lavra própria: ''Vencer não é competir com o outro; é derrotar seus inimigos interiores...''
Ora, gente boa, uma sentença como essa funde a cuca de qualquer cabeça-de-área. O Otacílio, por exemplo, não entendeu nada. Ele não tem inimigos. Jamais hospedou na sua alma cândida alguém que não fosse seu amigo do peito. Outra coisa: tudo indica que o time inteiro levou ao pé da letra a primeira parte da máxima: ''Vencer não é competir com o outro...'' Talvez essa frase possa explicar a facilidade com que o Cruzeiro fez sete gols e não tomou nenhum...
Em tempos não tão longínquos, o futebol baiano recorria, invariavelmente, à mistura de credos pra se impor às tropas inimigas, na hora do combate. Combinava, numa boa, pai-de-santo com Santo-Pai. Se o jogo fosse domingo, já na sexta, de noite, o feiticeiro botava na encruzilhada um bom despacho, constante dos seguintes elementos: um galo preto, duas velas, um amuleto e um litro de dendê.
Era tiro e queda. Tanto que os clubes cariocas começaram a importar jogador baiano, roupeiro baiano, massagista baiano. O Flamengo trouxe um massagista, que tinha nome de inglês: era o Johnson, um negão de dois metros de altura, parecido com o mestre Irineu, do Mapiá, lá do Acre, que eu conheci, de perto. A simples figura colossal do Johnson, olhar de quebranto, a andar de um lado pro outro, à beira do campo, já desanimava qualquer adversário. Há meio século, o massagista do Vasco é um notório pai-de-santo que eu entrevistei, há muitos e muitos anos. Pai Santana ainda era um menino, mas, já arranjava suas mandingas a favor do Vasco.
Domingo, o Bahia apanhou de sete a zero, sendo quatro de pênalti. O pênalti, notem bem, consiste na maior das punições do futebol. É a pena capital. Tantos pênaltis numa só partida só pode ter sido castigo de entidade pagã. São inúmeros os casos em que, desafiadas, as intenções malfazejas se voltam contra o próprio mandingueiro. É quando o feitiço se volta contra o feiticeiro.
Bem feito pro Bahia: quem mandou trocar as salgações da feitiçaria pelos floreios retóricos da auto-ajuda.
ALIVIADO, SIM; FELIZ, NÃO!
O Fluminense safou-se de uma tremenda fria. A Série B, todo mundo sabe, é uma forma de degredo pra quem vive na elite do futebol brasileiro. Nada, porém, que justifique o clima de festa. Só faltou cartola abrir champanhe. Afinal, comemorar o que? A menos que, desde o primeiro jogo, o objetivo tricolor fosse não ser rebaixado. Que a torcida celebre, eu entendo. A da Ponte Preta fez até carnaval em Campinas. O torcedor é assim mesmo: pura emoção. Vive do amor incondicional que, por sinal, é muito parecido com o amor maternal.
Dos que escaparam da queda só um time merece o nosso reconhecimento, que é o Paysandu. Os outros perderam por absoluta incompetência. O Paysandu, esse, coitado, sofreu um esbulho. O Paysandu foi espoliado pela côrte do futebol brasileiro. Meteram a mão num patrimônio que ele vinha conquistando, nobremente, no campo de jogo. Tomaram-lhe uma penca de oito pontos que seriam repassados, de mão-beijada, a alguns rivais, numa injustificável ação entre amigos.
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