A Bronca Dos Clubes

O futebol europeu começa a endurecer. Quer acabar, de vez, com a idéia de casa-da-mãe-Joana que fazem dos clubes os cartolas da FIFA. Chega de parasitismo. Pra ter e manter um elenco, o clube gasta o que não tem. Paga regiamente os seus astros. Aí, vem a FIFA, com seus satélites, e dana-se a faturar, com torneios sem-vergonha tipo sub-23, sub-20, sub-17, sub-sub, desfalcando os clubes, em plena temporada.
Quando falo em FIFA, estou falando da dita e, naturalmente, de suas confederações. Pra não ir muito longe, cito a nossa CBF. Pode haver melhor exemplo de cafetinagem? Ela sangra, periodicamente, o patrimônio dos clubes - dos 'estrangeiros' e dos domésticos - levando a nata do futebol brasileiro pra jogar torneios, os mais estapafúrdios, verdadeiros caça-níqueis, com a chancela oficial da própria FIFA.
Veja, amigo leitor, o caso do Inter, de Porto Alegre. O clube enfrentou uma batalha de vida-ou-morte, por um lugar na Libertadores. Tem dois jogadores que são a fina-flor da nova geração: Daniel Carvalho e Nilmar. Onde estão os dois, no momento? Simplesmente, às voltas com uma tal de sub-20, lá na caixa-prego.
Outro dia, li uma entrevista em que o técnico Parreira criticava duramente os clubes europeus pela decisão de esticar a corda até que se rompa a tirania da FIFA. Desse jeito, concluía Parreira, os clubes vão acabar inviabilizando as seleções.
É de estranhar que um homem esclarecido como Carlos Alberto Parreira não tenha percebido que a seleção, nos termos em que existe, hoje, está com os dias contados. Ou a FIFA respeita a autonomia dos clubes ou o próximo passo será um racha profundo no comando do futebol mundial. E quem vai acabar falando sozinha é a FIFA, com sua corte de filiadas.
Só um insano, só um cego mental ou um mal-intencionado não vê que as confederações, com respaldo da FIFA, estão matando a galinha dos ovos de ouro. Quem não se lembra das seleções estaduais. Era um barato o campeonato nacional. Acabou por que? Acabou porque os clubes não suportavam o ônus de ficar sem seus jogadores, dois, três meses, cada temporada. Pois a história se repete, agora, em dimensão planetária.
Hoje, Carlos Alberto Parreira empresta sua competência à CBF. Amanhã, ele voltará a trabalhar em clube. Defender a seleção, investindo contra o clube, que é a pedra fundamental do futebol, é, no mínimo, temerário. Estamos vendo o começo de uma prova de cabo-de-guerra. Eu estou pegando apostas. Sou os clubes europeus e dou o empate.
O FUNDO DO TACHO
Meu bom e fiel leitor, você merece um Natal feliz. Desfrute como lhe convier, mas se prepare porque vem arrastão por aí. Janeiro é mês de compra-e-venda no futebol europeu. Os empresários vão vender o tantinho de bons jogadores que ainda nos resta.
O Carlos Alberto, do Flu, está indo nessa. O Diego, só por milagre, não irá. Se o Inter segurar o Nilmar e o Daniel Carvalho, há de ser por muito pouco tempo. E não adianta crucificar o clube. Não há outra saída. O dono da bola, hoje, é o empresário. Esse é o senhor absoluto do futebol. O jogador deixou de ser escravo do clube e acabou nas mãos ávidas e tenazes do maldito agente Fifa.
Todos nós protestamos quando o São Paulo abriu mão de Kaká. Quem de nós, no comando do clube, não teria feito o mesmo? Ali, ou o São Paulo cedia à pressão do mercado e embolsava nove milhões de dólares ou, mais adiante, veria o jogador bater asas, sem que o clube visse a cor de um mísero dólar por Kaká.
Estou convencido de que está na hora de repensar a legislação que rege as relações entre jogador e clube. Tem que haver um meio de neutralizar a ação devastadora do empresário de futebol.
Não é possível que tenha dado no que deu a luta contra a tirania do passe.
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