Na Grande Área
O coração do Cruzeiro pode explodir, hoje, no Mineirão. Derrotar o Paysandu não são favas contadas, mas a lógica e, sobretudo, a esperança manda antecipar a festa. Afinal, ninguém fez tanto por uma conquista quanto o Cruzeiro. Ninguém foi mais constante, nem mais soberano que o virtual campeão de 2003.
Raramente, uma equipe atravessa jornada tão longa, sem perder o prumo. Régua, nas mãos de Luxemburgo, compasso nos pés de Alex.
O Cruzeiro navegou sempre em céu azul - a cor da casa. Nobre Cruzeiro, profundo azul do céu! Ninguém te segue, sem contemplar teus passos. Mas, não se pense que seja fácil sustentar uma travessia, tendo a fustigá-lo, de perto, uma equipe como a do Santos.
Se fosse o caso de compará-los, eu diria que o Cruzeiro é reflexão e o Santos, a intuição. Transposta a equação pra literatura, o Cruzeiro seria a prosa, o Santos, o verso.
Nobre Cruzeiro, por tua constância, por tuas vitórias, por teu futebol coletivo, por tua inabalável confiança, por teu desassombro, por teu passado e por teu futuro, ''recebe o afeto que se encerra em meu peito varonil''.
O herói alvinegro
Entrevistei o jogador Valdo (Papo com Armando Nogueira, Sportv). O modelo de herói, no esporte como na guerra, é o superlativo. Nas fitas de faroeste, que consagram o épico, o mocinho é o dono da bola. O rei do ''saloon'' e do gatilho. Cheguei!
Valdo é o herói às avessas. O anti-herói. Fala como se não falasse. Olha como se não olhasse. Pergunto-lhe como se sente, depois de ser aclamado, publicamente, como símbolo da emocionante ascensão alvinegra à casa grande do futebol brasileiro.
Limita-se a dar um leve sorriso, sublinhado por uma dentadura cor de neve. Permitam-me a digressão: Valdo tem os dentes mais brancos e mais bonitos que tenho visto no esporte.
Confessa que os méritos da conquista a ele atribuídos são uma graça, mais uma que Deus lhe concede. Sente-se feliz, sim, mas não tem ilusões: as glórias terrenas, diz dele, são efêmeras.
Segunda pergunta: por que decidiu jogar a final, mesmo, tendo o braço enfaixado, com uma fratura ainda longe de estar curada? Responde que passou a madrugada, pensando: jogo não jogo, entro de cara, não entro de cara. O braço ainda doía. Se levasse um tombo, certamente, desfalcaria o time.
Valdo me conta que um dos segredos da união da equipe do Botafogo, este ano, foi a liderança discreta de três veteranos: Sandro, Fernando e ele, Valdo. Os três decidiram adotar os mais moços. Sem paternalismos, sem tiranias; só dando exemplos, só dando breves conselhos. A turma jovem tinha e tem pelos três admiração e respeito.
Além da união entre os jogadores, Valdo destaca o estilo de comando de Levir Culpi. Inflexível, na disciplina, mas sempre aberto a ponderações de ordem tática vindas dos jogadores. E lembra que só mesmo um comandante arejado como Levir admitiria que alguém fizesse o que ele, Valdo, fez, quando, machucado, dava dicas ao time, em pé, na borda do campo.
''Levir e eu somos amigos. Saímos juntos, nossos casais, pra jantar fora. Nossas famílias sempre foram muito chegadas.''
O anti-herói Valdo diz que não imaginava que, no final da carreira, pudesse receber as manifestações de afeto que tem recebido da torcida do Botafogo.
Na despedida, me oferta a camisa 10 do Botafogo, com seu autógrafo, ao lado do ''slogan'' Botafogo no Coração. E conclui:
''Pra mim, isso não é uma simples frase. É uma verdade: essa estrela, agora, brilha também no meu coração.''
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