Vencer é do jogo, perder, também. Reencontrar a sua turma, também é legal. Botafogo e Palmeiras voltam à casa grande da 1 Divisão. O que dá transcendência à dupla vitória é a lisura da conquista. Palmeiras e Botafogo venceram sem recorrer à tramóia, sem reviradas de mesa. Dessa vez, o champanhe triunfal foi sorvido em pleno campo de jogo. Essa, sim, é a glória intangível, a glória intacta.
O time do Palmeiras nos dá um belo exemplo de brio esportivo. Foi à luta, ensopou a camisa, movido pela magia da tradição. Verde cálido, suma da esperança. Não é surpresa que o Palmeiras tenha subido. Seu lugar é no topo, mesmo. Como não foi surpresa ter caído, vítima que vinha sendo de uma administração, no mínimo, discutível.
Esperemos, agora, que a lição dos jogadores contagie a cartolagem, pra que o clube Palmeiras volte a ser um padrão de transparência, de despreendimento, de dedicação. Afinal, o desafio pode ser grande, mas não chega a ser assustador.
À luz de tão bela conquista palmeirense, certamente, há de despontar uma nova liderança político-administrativa, capaz de sacudir a poeira da velhacaria que tanto polui o ambiente do futebol brasileiro.
Aí está o caso do Botafogo, parceiro do Palmeiras na árdua travessia. O que era um clube cheio de vida, coberto de glórias, virou pó, virou cinza. Foi assim, arruinado, depenado, aviltado, até que Bebeto de Freitas assumiu o Botafogo.
Por amor ao clube, contido pelo pudor das pessoas idôneas, Bebeto de Freitas não conta, de público, o tamanho do flagelo moral e material a que ficou reduzido o clube do seu coração, fonte de tantas paixões herdadas e legadas, geração a geração. Exatos, daqui a pouco, cem anos de arroubos, de enlevos e de êxtases. Um século de unção.
O Botafogo foi saqueado pelos vendilhões do templo. Levaram tudo, num dos mais perversos arrastões de que se tem notícia, num clube de futebol. Só escapou à avidez dos pérfidos a Estrela Solitária, justamente a tábua de salvação a que se agarrou Bebeto de Freitas, com a ajuda de um grupo de botafoguenses de alma limpa.
Bebeto de Freitas não tem nada de messiânico. É apenas um homem de bem que ama o seu clube. Seu segredo é a decência. É a honradez. É a dedicação. Com essas virtudes, tão escassas no futebol, de hoje, Bebeto conquistou a confiança dos jogadores, dos técnicos, dos roupeiros e, sobretudo, dos torcedores, pobres e ricos.
Recentemente, Bebeto foi procurado por um empresário, botafoguense fervoroso, que lhe entregou um cheque de 180 mil reais. Só pediu, em troca, o compromisso do segredo. Não era nada, mas estava, assim, garantido um terço da folha de pagamento. Outros gestos semelhantes, ainda que mais modestos, têm contribuído pra aliviar as combalidas finanças alvinegras.
Aos poucos, o Botafogo vai vivendo a esperança de se salvar do inferno. Até que possa chegar, de vez, ao paraíso. Bebeto sabe de quantos sacrifícios e de quantos sortilégios se fez a mística da Estrela Solitária.
Afinal, não foi só de infortúnios que nasceu o provérbio que rege a sina de seu amado clube: Há coisas que só acontecem com o Botafogo.
Ser imortal é uma delas.
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