Bilhete ao torcedor Lula

Por favor, presidente, se o senhor quer, mesmo, o bem da seleção, não deixe de repetir o comentário que o senhor fez, depois do jogo com o Peru, porque a equipe brasileira voltou a ser um vexame, no empate de quarta-feira, contra o Uruguai.
Li no jornal que o senhor ficou cheio de melindres porque o técnico Parreira que, pretendendo lhe dar um troco, veio com aquela conversa de cada macaco no seu galho, querendo dizer que nem o senhor deve se meter na seleção, nem ele, no seu governo.
Eu gosto do Parreira. É das melhores figuras do nosso futebol. Mas, dessa vez, ele pisou na bola. Até parece que a seleção é propriedade particular dele. E o senhor sabe muito bem que não é. A seleção que ele dirige é tão nossa quanto o Brasil que, em nosso nome, o senhor dirige.
Futebol também é cidadania, também é democracia. O senhor, como bom torcedor, tem mais é que vigiar a seleção. Parreira, por sua vez, se quiser ser bom brasileiro, tem mais é que vigiar o governo.
Solte os seus cachorros, presidente. O senhor tem todo direito de chiar. Reclame do técnico, sim; reclame dos jogadores, como não? Até porque o senhor não falou do jogo como governante, nem como político; falou como torcedor. Todo mundo sabe de sua paixão pelo Corinthians.
Quando o senhor faz um discurso e pretende ser entendido pelo povo, recorre a uma linguagem recolhida na sabedoria do futebol. De onde vem suas metáforas e suas parábolas, senão da velha arquibancada, que vem a ser o grande palanque de todo torcedor?
Quando a seleção vai disputar uma Copa do Mundo, seja no Brasil ou em qualquer lugar do planeta, o bicho sempre pega. Por que? Porque o técnico, ou convoca mal, ou escala mal; aí, a torcida esbraveja, a imprensa vocifera, o técnico resiste, insiste, estrebucha, mas acaba fazendo o que todos queremos.
Refresquemos a memória. No longínquo mundial de 58, na Suécia, o Garrincha só entrou no time, na terceira partida, graças a um complô de que participaram jogadores, jornalistas e até cartola, na figura do chefe da delegação Paulo Machado de Carvalho.
Na Copa de 94, só Deus sabe o parto que foi a convocação de Romário, aqui chegado, às pressas, pra salvar a pátria, no jogo com o Uruguai, pelas eliminatórias. Pátria que o dito Romário voltaria a salvar, com gols e jogadas memoráveis, no mundial dos Estados Unidos.
Na última Copa, não foi diferente. O Felipão teimou em escalar uma equipe de segunda classe e só não perdemos as eliminatórias porque o clamor popular forçou-o a trocar meio time.
O senhor viu, quarta-feira de noite: o time fez dois a zero, mostrando uma superioridade que, aos olhos da paixão, parecia ser venturosa, mas que, no duro, no duro, era apenas enganosa. Quem enxerga um pouquinho de futebol via que o time uruguaio é que estava facilitando a vida da seleção, fazendo um tipo de marcação absolutamente suicida. Defendia-se à moda antiga, com aquela sinistra linha burra, uma formação de quatro zagueiros, sem ninguém na chamada sobra. Qualquer brasileiro que passasse pelo primeiro beque ficava cara-cara com o goleiro.
Vem o intervalo e o técnico deles corrige a besteira do primeiro tempo. Foi o bastante. O jogo mudou da água pro vinho. Era ou não era pro Brasil mudar também seu jeito de jogar? Mas o que foi que se viu? Em vez de mudar a tática, a seleção limitou-se a trocar jogador. Foi uma bobeada e tanto.
Então, eu pergunto: como deixar de cobrar do técnico e dos jogadores pelo desapontamento que eles causaram à nação inteira? Menciono os jogadores porque, eles se acomodaram. Ninguém ousou ir um palmo além dos ditames da prancheta.
Então, presidente Lula, continue a criticar.
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