A ALA ARY-GARRINCHA
Mané Garrincha e Ary Barroso. Muito tenho falado, por esses dias, desses dois mitos da aquarela brasileira: futebol e música. Ary, pelos cem anos e Garrincha, pelos 70, ambos fazendo a aniversário de nascimento, justamente, neste mês de novembro.
Os dois são personagens de uma deliciosa história, contada por Paulo Mendes Campos, numa de suas saudosas crônicas. Antes mais nada, saibam que Paulinho e Ary Barroso eram amigos e membros do que eles próprios os chamavam ''o ministério da noite'', do qual era titular absoluto outro boêmio insondável: Antônio Maria.
Lembra Paulinho que Ary era um sentimental. Dava estrilos, mas logo depois era amansado pelos afagos da mãe-culpa. Os dois brigavam muito por causa de futebol. Um, Flamengo apoplético, o outro, Botafogo patético.
Ary tinha uma incurável implicância com Garrincha. Não abria o coração, mas Paulinho percebia, nas broncas de Ary, o mesmo ciúme que corroía outros corações rubronegros, inconformados de ver que Garrincha surgia como terrível ameaça ao ídolo Joel, ponta-direita do Flamengo. Em pouco tempo, Joel viraria reserva de Garrincha, na seleção.
Jogo do Botafogo, não dava outra: Ary Barroso narrava com notória má vontade: ''Garrincha dribla um. Está querendo driblar outro. Solta essa bola, garoto! Driblou. Vai querer driblar mais um. Assim não é possível, Santo Deus! Vai perder essa bola, é claro. Gol de Garrincha...
Paulinho vai em frente, contando que a vitória do Brasil na Copa de 58 transformou em torvelinho o célebre Calypso, que era um dos maiores templos da boêmia carioca. Eis que entra no bar Ary Barroso, a gritar, com voz de peixe escabeche (a imagem é do próprio Ary):
- ''Paulo Mendes Campos, meu amigo: Vim aqui pra me penitenciar, de joelhos! O Garrincha é o maior jogador de futebol do mundo!''
Paulinho relembra:
- ''E o Ary, que, na puberdade fora um duvidoso goleiro de óculos, me dava abraços de campeão do mundo.''
Calorenta e calorosa...
Acabo de passar dois dias em Goiânia. Bela e jovem cidade que acaba de fazer 70 anos de idade mas que já dá lições de qualidade de vida a muita metrópole brasileira metida a histórica.
Ao chegar, fui avisado de que iria sentir muito calor. Senti, de fato, mas, nada que me sufocasse. Goiânia pode ser calorenta, mas sua gente é calorosa. E nada melhor pra refrescar a alma do que calor humano. Se o amigo leitor anda meio de crista baixa, faça como eu: pegue um avião e vá espairecer em Goiânia, uma cidade que transpira otimismo e afeto. A impressão que me deu é que, em Goiânia, não existe casa alheia: toda casa é sua também.
Só há um porém a considerar: se o amigo gosta de futebol, todo cuidado é pouco. Na geografia sentimental do futebol, Goiânia é dividida ao meio por uma linha imaginária que separa a cidade em dois pólos: metade mata e morre pelo Goiás, metade morre e mata pelo Vila Nova.
Certa vez, numa entrevista que me deu, o colorado Luis Fernando Veríssimo exprimiu assim o tamanho do desapreço que tem pelo Grêmio: se fizerem, no Olímpico, um jogo entre o Grêmio e um time de cachorros, ele irá ao estádio só pra latir, caninamente, a favor do time visitante. Pois deu pra sentir que, em Goiânia, reina o mesmo estado de espírito entre as torcidas do Goiás e do Vila.
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