AQUARELA DE ARY

Meu personagem, hoje, não é jogador mas é uma criatura do futebol, esporte que foi uma de suas muitas e desvairadas paixões. Falo de Ary Barroso, cujo centenário de nascimento está sendo celebrado este mês. O Flamengo não tem, até hoje, torcedor mais ilustre que Ary Barroso. Por amor do Flamengo, na irradiação da final de 1944, Fla e Vasco, Ary largou o microfone e foi chorar, à beira do campo, os minutos finais da conquista do tricampeonato carioca.
A MPB, tal como o futebol, tem em Ary Barroso um devoto incomparável, na qualidade e na quantidade de uma obra musical que ganharia o mundo, quando o Brasil ainda era, apenas, o país do futebol e do café.
Como repórter, passei a vida toda, andando pelo mundo afora. Não me lembro de um lugar onde não tenha ouvido uma canção de Ary Barroso que eu ouvia, morrendo de saudades e de orgulho também.
No dia da final da Copa de 98, em Paris, tomei um metrô. O vagão à frente do meu estava lotado de torcedores franceses, carregando bandeiras e cantando a Marselhesa. O vagão de trás, cheio de brasileiros. Pensei: quando os franceses pararem de cantar a Marselhesa, os brasileiros vão dar o troco, cantando o nosso hino nacional.
Foi o que aconteceu. Só, amigos, que em vez do ''Ouviram do Ipiranga'', o que se ouviu foi a Aquarela do Brasil, cantada com fervor e, sobretudo, alegria. Os próprios franceses aplaudiram.
A música de Ary Barroso, toda ela, exprime integralmente, a gente brasileira, em corpo e alma. É sortida de sentimentos, como o povo do Brasil-lindo e trigueiro. Pavarotti já disse que, se dependesse dele, o hino da Itália seria o Il sole mio. Se dependesse de mim e de muito mulato inzoneiro, o nosso hino nacional seria a Aquarela do Brasil.
Louvemos, pois, a memória de Ary Barroso, gênio da raça.
AS QUATRO OPERAÇÕES...
A 2 Divisão, à luz da aritmética, está assim: o Palmeiras tem 94 por cento de chance de subir, o Botafogo, 78 por cento, o Marília, 17 por cento e o Sport, 11 por cento. Liquidada a fatura? Mas, há um porém que o futebol sempre levou em conta: algarismos não entram em campo, a não ser superficialmente nas camisas dos jogadores. Em paradas como esse quadrangular, tipo jogo lá e cá, o que decide, mesmo, é a alma, cuja ciência pode não ser exata, mas é capaz de realizar, com êxito, qualquer uma das quatro operações. A alma soma, diminui, multiplica e divide...
CEM METROS RASOS
De cabeça pra cima, a poucas rodadas do fim, o campeonato-2003 se resume a uma corrida de cem metros rasos, entre dois velocistas, um dos quais leva sobre o concorrente a distância de dois corpos de luz. A situação do Cruzeiro é, sem dúvida, das mais confortáveis, mas todo cuidado será pouco. Não custa nada lembrar que, dos quatro adversários do Cruzeiro, três figuram no pelotão dos desesperados: Paysandu, Fluminense e Bahia. Quer dizer: cada um deles, daqui pra frente, fará das tripas coração pra salvar, ao menos, os dedos, já que os anéis, esses já se foram, de vez.

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