A Divina Comédia

É chegado o momento mais dramático do Campeonato Brasileiro. De repente, o futebol imita a Divina Comédia, obra genial em que Dante Alighieri reduz a vida a três realidades: Inferno, Purgatório e Paraíso.
Três portas entre-abertas diante de 24 equipes. A entrada mais estreita, sem sombra de dúvida, é a do Paraíso, em cujo seio só há lugar pra um dos peregrinos o eleito dos deuses olímpicos. Será o Cruzeiro? Tudo faz crer que sim, embora o Santos pretenda fazer crer que talvez não seja.
Grande é a fila à porta do Purgatório. Pra esses, a salvação pode ser a a Libertadores, esperança de quem tem, pela frente, muitas folhas de pagamento a honrar.
Os limites geográficos do Inferno, no universo do campeonato, ficam sumamente abaixo da linha do horizonte, o que torna a ronda asfixiante porque sem perspectiva. O time entra em atitude anormal. O que é firmamento vira terra, o que é terra vira firmamento. O dia se confunde com a noite, na angustiante vigília dos desesperados.
Dante era metido a profeta. Quem não é? Ao profeta não cabe acertar, mas tão somente, palpitar. É o que faço, pressentindo que, no rol dos verdadeiramente a perigo, podem estar o Grêmio, o Fortaleza, o Fluminense, o Bahia, a Ponte Preta e o Paysandu. Essa ordem fica sujeita aos fatores imponderáveis do futebol.
Desses seis de sina dantesca, dois, certamente, vão povoar o Inferno.
Alma de passarinho
Em crônica recente, dispensei-me de publicar uma história de Garrincha que aparece no ''Meninos, eu vi'', o novo livro do Juca Kfouri. Não me sentia à vontade se privasse o leitor do privilégio de saborear o estilo do autor que, como disse, conta o fato com objetividade e leveza. Acontece que não resisto à tentação de faltar com a palavra, amparado na esperança de que o primeiro a me perdoar será o próprio Juca.
Então, vamos lá, mesmo porque, nesses dias de reverências a Mané Garrincha, o que mais querem os mais jovens é ouvir dos mais antigos, histórias do genial ponta-direita do Botafogo e da seleção bicampeã do mundo.
Em torno de sua prodigiosa trajetória, formou-se um imenso folclore em que se misturam verdades e fantasias. Entre as verdades que exaltam Garrincha, figura um gesto dele que arrancaria da multidão aplausos consagradores.
O jogo era um Botafogo e Santos, dos anos 60. Quer dizer, maior clássico, então, não poderia haver. Ali estava a fina flor do futebol brasileiro. De um lado, Pelé, do outro, Garrincha. O Pacaembu inteiro, naturalmente, em delírio. De certo, mais por Pelé, que por Garrincha. Sucede que Garrincha estava com a corda toda. Cada bola nos seus pés era um transtorno pro lateral santista Dalmo. A cada drible de Garrincha, Dalmo dava o troco em pontapé.
Pela tantas, o árbitro expulsou Dalmo, no mínimo pra evitar que o time do Botafogo, em peso, mordesse a jugular do lateral do Santos. Pois sabem vocês quem acabaria salvando a pele do Dalmo? O próprio Garrincha. Ao ver o adversário cercado de botafoguenses irados, Garrincha entrou no bolo, abraçou fraternalmente seu algoz e o levou até a boca do túnel, sendo, por isso, aclamado, de pé, pela multidão que era toda do Santos.
Como se vê, Garrincha não tinha só nome de passarinho; a alma dele também de era de passarinho.
E-mail: [email protected]

mockup