O inventor da alegria
Guga e Robinho que me perdoem, mas esta semana, que os dois acabam de tornar mais festiva pra todos nós, deve ser dedicada justamente a quem veio ao mundo pra consagrar a alegria no futebol: Garrincha. Se vivo fosse, teria feito 70 anos, ontem. Eu, que tive o privilégio de vê-lo dar o seu primeiro drible de súmula, relembro a homenagem que lhe prestei, no dia em que ele morreu, há 20 anos. Perguntava eu, sitiado de saudades:
''Por onde andarão tuas chuteiras?/ Estarão, talvez, escondidas/ No crepúsculo de algum museu?/ Ou quem sabe, terão partido, também,/ com o anjo que alçou teus pés/ no vôo derradeiro?/ E teus passos? Quem, mais que a relva poderia imaginar, agora,/ quanto é profundo o silêncio dos teus passos?/ Onde quer que estejas, cuida bem de ti, porque um dia/ hás de voltar à brisa dos campos,/ como a lua que volta ao pátio dos poetas./ Ainda hoje, pulsam em meu peito as minúcias do teu drible./ Intangível como a noite musical,/ ele dispensa espaço e existe./ Como o próprio tempo, não tem começo nem fim./ Devolve ao estádio a graça de teus pés,/ que triscam a bola com agrados de sedução./ Relembro teus músculos, incandescentes,/ prenunciando o gesto que arrastará, na mesma vertigem, o bem e o mal./ Até que, num instante, desaba, de vez, no riso da multidão, o corpo geral dos trôpegos rivais./ E a bola, então, inocente quase, vai repetindo teus passos, a celebrar contigo a fuga triunfal./ Teu drible é, sim, a eternidade contida no efêmero.''
''Meninos, eu vi!''
Grata coincidência: nesses dias em que prestamos reverência à memória de Garrincha, recebo o livro de Juca Kfouri, ''Meninos, eu vi!'', recém-saído e vejo que o personagem principal da crônica de abertura não é outro senão o sempiterno Mané Garrincha.
Juca Kfouri conta a história de um Botafogo-e-Santos, no Pacaembu, anos 60. Uma delícia de episódio que encerra a excepcional dimensão humana do genial ponta-direita, certamente, o maior de todos os tempos.
Dispenso-me de detalhar o fato pra não privar o leitor de saborear o estilo, ao mesmo tempo, despojado, fluente e brilhante, com que Juca Kfouri recorda um jogo que entrou, pra sempre, na história do melhor futebol do mundo.
O livro ''Meninos, eu vi'', que tenho a satisfação de prefaciar, é uma seleção de crônicas escritas por um craque na arte de contar histórias. Um livro que vem enriquecer o patrimônio literário do esporte brasileiro.
Meninos, não deixem de ler!
Cruzeiro e Santos
E lá se vai o campeonato, brincando de gato-e-rato com todos nós, profetas, feiticeiros, videntes, palpiteiros. Quem disse que o Cruzeiro já era campeão? Se ninguém assume, cá estou eu, dando minha cara a tapa. Fiz meu balanço: o Santos perdendo fôlego, o São Paulo se afundando, o Coritiba patinando; só restava, soberano, o time do Cruzeiro, com 12 pontos de vantagem sobre o Santos. Por que não predizer?
De repente, o time do Santos renasce, o do Cruzeiro escorrega, pisa em falso e deixa em apuros os convictos de sua infalível consagração. A julgar pelo que fizeram os dois, no último fim-de-semana, o melhor mesmo, já não digo que seja silenciar, mas, com certeza, que devemos ficar na moita. O Cruzeiro leva seis pontos de frente, mas os seis de hoje já foram 12, há muito pouco tempo.
É inegável que algumas variáveis contribuíram pra súbita queda do time do Cruzeiro: cartões amarelos, uma pesada suspensão contra o excelente zagueiro Edu Dracena, um problema físico do temível Aristizábal, erros crassos de arbitragem em desfavor da equipe mineira. Em matéria de conjuras e sortilégios, o futebol vive de imitar a própria vida. São os chamados ossos do ofício.
Cruzeiro e Santos são duas equipes poderosas. Uma, a mineira, mais racional; a outra, mais intuitiva. A meu ver, a essa altura, o Cruzeiro precisa, mais que nunca, ter sangue frio e o Santos, mais que tudo, ter sangue quente. Um pra insistir, o outro, pra resistir.
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