Carta de desabafo

Na Grande Área não costuma receber carta de dirigente esportivo. Em geral, ou o cartola ignora solenemente a opinião da coluna ou vai fundo e processa este pobre marquês. Hoje, abro uma exceção, transcrevendo, na íntegra, carta do senhor Fábio Koff, presidente do Clube dos Treze. A carta é, ao mesmo tempo, uma retificação e um desabafo.
''Caro Armando: embora não me assista o privilégio de uma convivência mais próxima, condição indispensável para que as pessoas possam melhor avaliar-se, esta realidade não me impede de inscrever-me entre os brasileiros que se encantam com o seu talento e indisfarçável apreço pelo que é justo e correto. Aceite, por favor, a modesta homenagem de um homem que transitou pela vida buscando fazer e ensinar justiça como juiz de direito e professor e hoje, já passado dos 70 anos, orgulha-se em apresentar como seu único e maior patrimônio, um histórico de conduta respeitado pelos seus familiares, amigos e todos que o conhecem. Por não admitir procedimentos contrários ao ético e justo, fui o primeiro gaúcho a ter os seus direitos políticos cassados pela ditadura. Mas, este é outro assunto. O que me leva a escrever esta carta, reiterando meu proceder permanente de respeito às liberdades individuais, principalmente o direito de expressão, é o desejo de manifestar minha cordial e respeitosa contrariedade com algumas posições expressadas na sua conceituada coluna do JB. A tanto não me atreveria, Armando, não fossem a consideração, o respeito e a admiração que tenho pelo seu dedicado trabalho em benefício do esporte. Não creio que possa contar nos dedos de uma só mão às vezes em que me sentei para contestar algo que tenha sido dito ou escrito, peço que acredites. E motivos, juro, não faltaram. Sequer quando, há poucas semanas, um colega seu escreveu, literalmente, que 'qualquer coisa se pode esperar quando se reúnem Caixa D'Água, Ricardo Teixeira, Eurico Miranda e Fábio Koff'. Referia-se a Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pelo PP e da qual tomei conhecimento pela imprensa. Esta reunião nunca existiu e não creio que um dia possa acontecer, o que não evitou o grosseiro ataque.
Armando, o Clube dos 13 nada está fazendo, oculta ou claramente, para proteger qualquer dos seus associados sob ameaça de eventual rebaixamento. Se qualquer proposta, nesta direção, fosse colocada no âmbito da nossa associação, meu pedido de demissão seria imediato e irrevogável. Jamais aconteceu, nem mesmo quando o Palmeiras, dirigido pelo vice-presidente do Clube dos 13, estava ameaçado pela queda, o que acabou acontecendo.
O Botafogo, que a nossa entidade estaria 'torcendo para não subir' é um querido membro-fundador do Clube dos 13, cuja qualidade de voto é igual a de todos os demais associados. Da nossa associação o Botafogo tem recebido, religiosamente, os 50% da cota de televisão a que tem direito estatutário. Além disso, tenho buscado, sempre que possível, auxiliar o presidente Bebeto de Freitas na solução de problemas financeiros que são inúmeros e comuns a maioria dos clubes. Creio que o próprio presidente do Botafogo não se negará a confirmar minha afirmação.
Tampouco sintoniza com a realidade a premissa de que 'a cartolagem daria a vida para ver o Palmeiras de volta à primeira divisão, pois valorizaria publicidade, audiência da televisão....'. Não podemos negar, por óbvio, que os anunciantes da televisão preferem transmissões de jogos envolvendo clubes de grandes torcidas. E, até, que a audiência diminui quando estes clubes fazem campanhas descompassadas com a ambição dos seus torcedores, fato que já levou a Rede Globo a defender alterações na fórmula da competição. Ao Clube dos 13, entretanto, interessa tão somente a aplicação integral das regras e a plena observância dos resultados de campo. Por sua história e grandeza, a volta do Palmeiras ao convívio da primeira divisão não pode desgostar a ninguém que preze os interesses do futebol brasileiro. Porém, terá que acontecer por méritos e não por ações subalternas que já não têm espaço no futebol brasileiro. É essencial lembrar, Armando, que tanto Palmeiras quanto Botafogo assumiram com dignidade os desconfortos do rebaixamento e estão lutando com bravura e lealdade por suas recuperações. Por que contaminar e diminuir o esforço que fazem pelo azedume de intrigas sem endereço?
Desculpe-me, caro Armando, pelo tamanho desta correspondência. Era para ser de esclarecimento e já está com jeito de desabafo. Não era a intenção, embora não possa sonegar que dor e inconformidade são efeito natural da generalizada alusão a 'cartolagem', que a ninguém poupa da sua indefinida tradução e é, por isso, ainda mais capaz de ferir. Tanto quanto se a referência generalizada se dirigisse para qualquer outro segmento social, o jornalístico, inclusive. Nós, dirigentes, não formamos uma tribo de intocáveis patrocinadores de todas as virtudes. Haverá entre nós, certamente, companhias que constrangem pelo desapego a um comportamento ético. Somos muitos, entretanto, a quem nada move além da paixão pelo futebol e pelos nossos clubes. Foi este sentimento que me fez jogador, técnico e dirigente de futebol. Não gostaria de lamentar, após trilhar uma longa estrada de vivências, ter um dia sucumbido a esta paixão pelo futebol. Erro, erramos todos, muitas vezes, e ainda haveremos de cometer erros, mas sempre com o desejo de acertar e servir ao futebol.
Perdoa o atrevimento e a loquacidade deste modesto 'cartola', Armando, que apenas quis expor um pouco dos seus sentimentos, além de colocar-se à sua permanente e inteira disposição, e acabou alongando-se além da conta. Vezo de um juiz aposentado. Sintoma, talvez, de um homem um pouco magoado e com a sensibilidade aguçada pelo tempo. Um velho rabugento, talvez. Com admiração e respeito, Fábio André Koff'.
Pela fidelidade da transcrição, Armando Nogueira
E-mail: [email protected]

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