NA GRANDE ÁREA
Uma pedra no caminho
Domingo aconteceu qualquer coisa no campeonato que me fez acordar, lembrando de um dos mais celebrados poemas de Drummond: E agora, José? O Cruzeiro perdeu, o Santos venceu, a distância encolheu. José é qualquer um de nós. José somos todos nós que não queremos aprender a sábia lição de que, em futebol, só se fala de campeão depois que a festa acabou, depois que a luz apagou e depois que o povo sumiu do estádio.
A aritmética dos catedráticos não contava que o Juventude sairia do Mineirão levando três pontos que poderão salvá-lo do abismo e que, por outro lado, reacendem as esperanças santistas, agora, só a nove pontos do Cruzeiro. Cruzeiro que há um ano estava invicto no Mineirão. Cruzeiro cuja torcida, em delírio antecipado, já festejava o título, sem que ninguém ousasse contestá-la. A começar por este Marquês de Xapuri.
E nove pontos não são mais que três derrotas do líder. Faltam nove jogos, com 27 pontos em jogo. O Cruzeiro é o melhor time do campeonato. Mas, o futebol já demonstrou, mil vezes, que é um jogo de sortilégios. Não foi à toa que o conselheiro Acácio, célebre filósofo de galinheiro, disse, um dia, pra espanto geral, que o futebol é uma caixinha de surpresas.
Pra terminar com o mesmo poeta do começo desta nota, é bom saber que, na vida como no futebol, tem uma pedra no meio do caminho/ No meio da caminho tem uma pedra.
E agora, Cruzeiro?
De Romário a Greta Garbo
Romário passa à história do futebol como o gênio do gol inapelável. Ninguém jamais conseguiu reduzir o espaço da grande área às dimensões de sua soberana vontade. Sempre ignorou, solenemente, os zagueiros mais consistentes, os goleiros mais invioláveis.
Era o senhor dos tempos, os cronológicos e os psicológicos. Acontece que o tempo passa. Pra alguns, de forma impressentida; pra outros, de forma palpável. Romário insiste em continuar jogando, embora comece a dar sinais de que está chegando a hora de dizer adeus ao futebol. Ele tem dado claras provas de que já não é o fabuloso artilheiro de gols impensáveis e inesquecíveis.
Outro dia, ele chegava de uma viagem com o Fluminense. No aeroporto, ouviu um pai dizer a seu filho, um guri: - ''Esse aí é o Romário. Joga muito futebol!'' E Romário, com uma palavrinha, entre-abriu o coração: - ''Jogava!''
Ao ler no jornal essa historinha, me lembrei de Greta Garbo, figura mitológica do cinema, anos 30. Já escondida no exílio de seus óculos escuros, Greta Garbo é abordada por um admirador que a reconhece numa rua de Los Angeles: - ''Você não é a Greta Garbo?'' - ''Era!'', respondeu a ex-musa, sem sequer olhar pro lado.
Rápidas e rasteiras
Júnior volta de São Paulo, justificando seu gesto de jogar a toalha, dez dias depois de ter assumido o comando técnico do Corinthians. Diz que tomou um susto com a dimensão do abacaxi. Por mais que sua história inspire respeito e admiração, Júnior talvez leve um bom tempo, pagando, no sereno, um preço árduo por uma decisão, no mínimo, intempestiva. Lastimo o episódio pelo afeto que nos aproximou, quando trabalhamos juntos, na bancada de comentaristas do Sportv. / / / / / Realmente, impressionante a série de defesas do goleiro Diego, no jogo Atlético Paranaense x Santos. A exibição do goleiro atleticano merece um ''clip'', com direito àtrilha sonora de orquestra sinfônica. Curioso é que, no Flamengo, há outro Diego, reserva de Júlio Cesar, igualmente, prodigioso. Estou falando de Diegos, mas poderia citar outros nomes do mesmo calibre. O futebol brasileiro pode se orgulhar de ter, hoje, um ''cast'' de goleiros simplesmente admiráveis.
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