NA GRANDE ÁREA
O clube dos ricos
Alguém tem dúvida de que o campeonato vai acabar na Justiça Comum? Nunca se viu tanta querela extra-campo. O regulamento da CBF é um gato escondido com um imenso rabo de fora. O futebol, por aqui, virou um jogo de espionagem e contra-espionagem.
Até agora, quem está pagando o pato (sem tucupi) é o simpático Paysandu. Neguinho vai a Belém, toma um ferro na bola e volta de lá, impávido, com a inabalável certeza de que o anfitrião vai pagar caro por aquela vitória. No dia seguinte, não só o Paysandu perde três pontos como o visitante ganha mais três.
Não há quem me tire da cabeça a idéia de que estão querendo livrar a cara de membros do Clube dos 13 sob ameaça de cair pra Segunda Divisão.
Que há um sentimento de casta lá cima, isso é coisa que ninguém discute. Outro dia, um cartola, homem de bem, me dizia o seguinte: o Bebeto de Freitas que abra o olho porque, o Clube dos 13, na melhor da hipóteses, está torcendo pro Botafogo não subir. Outro qualquer em cima é melhor do que o Botafogo. Pelo seguinte: sendo membro fundador do clube, o Botafogo terá direito a uma fatia da generosa partilha financeira; e como não teria o peso político e econômico dos maiorais da igrejinha, quanto mais longe do bolo, melhor.
É justamente o oposto do que se dá com o Palmeiras, que a cartolagem daria a vida pra vê-lo, o quanto antes, na confraria dos eleitos. Eles consideram que o Palmeiras valoriza todos os contratos de publicidade e direitos de televisão, placas, inclusive.
Amigos, o futebol, hoje, é uma questão de mercado. Devia sair da página de esportes e passar a figurar na pauta da editoria econômica.
O maior peladeiro
Por esses dias, encontrei meu velho amigo Miele, Luiz Carlos Miele, dublê de artista e peladeiro emérito. Miele está se refazendo de um tombo catastrófico, do qual escapou por milagre, com 50 pontos na cabeça e os dois joelhos espatifados.
Saudei o amigo como o maior peladeiro da cidade. Ele me corrigiu: um... dos, porque o maior, mesmo, é Chico Buarque de Holanda. Disse-o e provou. Chico Buarque joga pelada duas vezes por semana. Tem campo exclusivo: gramadinho, tem vestiário. Tem mordomia de sucos e água gelada. Chico entra com tudo: a bola do jogo, as camisas. É ele quem escala os dois times. O da casa se chama Politeama.
Há coisa de ano e meio, quando começou a escrever o romance Budapeste, que acaba de sair, com estrondoso sucesso, Chico sumiu de circulação: não compôs nada, não gravou nada, não fez show, não viajou pra lugar nenhum. Quando escreveu o Estorvo, foi a mesma coisa. Chico abriu mão de tudo, menos de uma coisa: a pelada, as duas, segunda e quinta-feira, pontualmente, a uma da tarde, chova ou faça sol.
Miele me conta que, há cerca de dez anos, ele, Miele, levou pessoalmente a Chico uma proposta de show, em São Paulo. Seria no encerramento de um congresso de empresários. Queriam Chico Buarque, de qualquer maneira. O cachê, em cifras de hoje, daria uns R$ 100 mil, limpinhos, limpinhos, pra dividir entre ele e o seu próprio violão.
Chico fez a Miele uma perguntinha, já de caso pensado: é pra que dia da semana esse show? Uma segunda-feira respondeu Miele. Impossível respondeu Chico, de bate-pronto: Segunda-feira é dia da nossa pelada.
E mudou de assunto, numa boa.
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