Um caso de polícia

O jogo Cruzeiro 3 x 0 Santos ultrapassou os limites do campo e acabou caindo no terreno lodoso da baixaria. Pra variar, coisa da cartolagem. Corria a partida, lindamente, quando o santista Fabiano apelou pra ignorância, dando uma cotovelada no rosto de um adversário. Expulsão sumária, nada a objetar. Incontinenti, o técnico Leão deixa a área técnica e entra no campo. A intenção parecia ser tão somente passar uma instrução ao jogador Elano.
Era um momento de tensão e o árbitro, que conhece a fera, não hesitou em expulsar, também, Leão. Nem dá pra dizer que foi uma exorbitância do árbitro Héber Roberto Lopes. A norma é clara: o treinador não pode se afastar da área técnica, sob pena de ser expulso. Aliás, a rigor, o técnico nem pode ficar plantado à beira do campo. Tem de ir lá, passar seu recado e voltar rapidinho pro banco. Enfim, há leis que pegam e leis que não pegam: essa é uma que não pegou...
Instala-se, então, a zorra total. Cartola, repórter, câmera, microfone, polícia, era um tal de todo mundo a se esbarrar, como nas batalhas campais. O futebol vive mais um de seus costumeiros momentos de irracionalidade.
Deus do céu, quando é que essa gente vai criar vergonha na cara? Por que deixar que o campo de jogo se transforme na casa da mãe-joana? Que diabos faziam, ali, dois cartolas do Santos? Estavam credenciados? Quem os credenciou, indevidamente? Por que deixar que circulem pelo campo, como franco atiradores, repórteres, fotógrafos, cinegrafistas?
Se pensam os cartolas que isto é liberdade de imprensa estão todos redondamente enganados. Essa ilimitada liberalidade só existe no Brasil. É a cartolagem querendo puxar saco de jornalista. Em todos os estádios do mundo civilizado, há lugares e horários judiciosamente estabelecidos que asseguram à imprensa, ao rádio e à tevê o acesso à informação. O vai-e-vem de jornalistas à beira do campo só agrava a bagunça.
O tumulto de sábado passado deve merecer a mais enérgica punição do STJD. O doutor Zveiter não pode deixar sem um bom grampo os diretores do Santos e, muito menos, o treinador Leão, que se insubordinou, bateu pé e não foi embora pro vestiário, como era devido.
Por sua vez, o árbitro deve levar também o seu castigo por ter feito vista grossa à permanência do técnico na boca do túnel. Nesse ponto, Héber Roberto Lopes comprometeu a sua própria autoridade.
É bom saber se Héber ouviu o diretor do Santos chamá-lo de safado e acusá-lo, aos berros, de ter roubado o time do Santos. O novo Código Civil Brasileiro, em vigor desde janeiro último, é implacável na proteção à honra do indivíduo. O leviano, hoje, paga caro.
Imagino que, a essa altura, o leitor esteja pensando: até agora, a coluna do Armando, toda ela, devia estar figurando na seção policial. Peço desculpas, mas o meu ofício, às vezes, tem ossos duros de roer. Bem que eu preferia estar me deliciando com o show de futebol que vinham dando os times do Cruzeiro e do Santos até o momento em que Fabiano saiu do sério.
Mesmo sem ter em campo seu engenhoso armador, mesmo privado de Diego, ainda assim, o time do Santos mostrava a sua cara. Bela equipe! Tão brilhante e tão vistosa quanto a do Cruzeiro, que é o nosso melhor exemplo de time organizado, desassombrado, vigoroso e fulminante.
Badernas à parte, dou um pelo outro e não quero, em troca, senão o galante futebol que jogam Cruzeiro e Santos.
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