NA GRANDE ÁREA
Como nasceu um alvinegro
O episódio é contado por João Moreira Salles, um botafoguense de alma temperada em aço puro. Data dos primeiros anos da década de 80, ''talvez'', diz ele, ''o período mais negro da história do Botafogo.''
O irmão mais velho de um amigo meu viu-se diante do seguinte problema: seu filho, de cinco anos, começava a se interessar por futebol. Fase perigosíssima e, sobretudo em tempo de Zico. O time da Gávea corrompia despudoradamente o espírito frágil das crianças com as suas tentações de Galinho, Raul, Júnior, Leandro, Carperggiani, Geraldo, Adílio, Andrade e Júlio César. Nós só podíamos oferecer Perivaldo, China, Wecsley e Jerson, com jota.
O irmão do meu amigo não teve dúvida. Todo domingo, estendia a camisa do Botafogo em cima da tevê, sentava o filho no sofá e lhe entregava um balde de pipoca com um copo de Coca-Cola. Às cinco em ponto, ligava a tevê, mas não antes de reduzir a zero o volume do som. Em seguida, deixava a criança se deslumbrar com as maravilhas que o time fazia em campo. O time do Atlético Mineiro, isto é, a cada gol de Reinaldo, o pai gritava: ''Foo-go!'' Na terceira partida do alvinegro de Belo Horizonte, a criança não teve mais dúvida. Canso de encontrá-lo nos estádios. É botafoguense roxo...
Contra o impedimento
Franz Beckenbauer, um monumento do belo futebol, passou por São Paulo, deixando uma boa notícia: a Fifa está começando a se convencer de que a lei do impedimento precisa ser alterada. Como está, só dá dor de cabeça.
Impressionante: passaram quase um século pra descobrir que a tal regra é um completo absurdo. Como é que alguém pode, principalmente nas jogadas de ações rápidas, constatar que um jogador está adiantado no instante em que a bola sai do pé do passador? Não há olho humano capaz de abarcar, no mesmo relance, dois gestos simultâneos, em lugares distintos do campo.
Beckenbauer conta que, numa conversa com Blatter, chegou a dizer que a lei é confusa. Mais que confusa, diria eu, a lei é iníqua e, como tal, inaplicável. Apesar de tanto tempo em vigor, é uma regra estúpida.
Não imagino que a Fifa venha, um dia, acabar radicalmente com o impedimento. Admito, porém, a idéia de ver reduzida à metade do meio campo a área de aplicação da regra. Quem sabe, prolongando até as laterais a linha interna da grande área.
Ronaldinho, a perigo!
A seleção entrou em recesso. Agora, só em novembro. A mim o jogo com o Equador me deixou um grilo: Ronaldinho Gaúcho. Eu esperava muito mais dele. Fiquei desapontado. Achei-o um tanto deslumbrado. Passados alguns dias, verifico que minha impressão tem sentido. Acabo de ler uma longa entrevista do ex-técnico do PSG, Luis Fernandez.
Vou resumir o que fala de Ronaldinho Gaúcho o treinador Fernandez: 1) Ronnie (assim é chamado Ronaldinho no PSG) é uma estrela, um talento natural formidável; 2) Ele gosta mais de brincar com a bola do que de jogar: é um ''jongleur'' (malabarista); 3) No PSG, ele ganhou massa muscular, tornou-se mais explosivo e, quando chegou a Copa do Mundo, o técnico Scolari me agradeceu pelo trabalho atlético que fizemos com Ronaldinho; 4) Se Ronaldinho não amadurecer, jamais será o super-craque que todos esperamos dele; 5) Ele detesta treino e só corre pra valer nos grandes jogos; 6) No PSG, eu tentei dar responsabilidade a ele, tanto que lhe confiei a braçadeira de ''capitão'', mas, pra usar o distintivo de ''capitão'' não basta ser craque; é preciso ser líder, dentro e fora de campo, o que não é o caso de Ronaldinho; 7) O técnico Rijkaard, do Barcelona, já disse, em recente entrevista, que não o considera um líder; no Barça, Ronaldinho vai ter que respeitar a cultura do Nou Camp, que é implacável: ou ele se enquadra ou cai do cavalo; 8) Se pensa que o Campeonato Espanhol se resume a dois jogos Barça-Real, Ronaldinho está redondamente enganado.
O chato é que a máscara pode estragar um dos maiores talentos do futebol mundial.
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