NA GRANDE ÁREA
O lugar de Milene
Sempre simpatizei com a Milene. Desde quando ela fazia embaixadinhas, ora, no intervalo de jogo, ora nos programas de auditório na televisão. Assim, ela ia ganhando um cachezinho, modesto, é verdade, mas bem-vindo. Milene fazia o seu prosaico ilusionismo como se estivesse tecendo, bola por bola, a ilusão de um dia se tornar uma estrela do futebol. E não é que a mágica da lourinha acabou dando certo? Milene casou-se com Ronaldinho e é, hoje, a louvada primeira-dama do futebol mundial. Ficou bonita, ficou rica, ficou famosa. Bola mais cheia, impossível.
Nada, porém, justifica a manobra da CBF, dando prioridade à madame Nazário na convocação da seleção feminina de futebol. Se há uma coisa que sempre honrou o futebol é o critério democrático de escolha. Ninguém faz carreira à custa de apadrinhamentos. A CBF sabe que a bola da madame não é tão redonda. Futebol não se transmite por contágio direto.
Milene já passou por times italianos, está jogando na Espanha e, pelo visto, não chega a empolgar. Uma coisa é brincar de fazer embaixadas. Eu, que sempre fui um incurável perna-de-pau, até hoje, sou capaz de fazer meia-dúzia de embaixadas. E daí?
Milene talvez não passe no par-ou-ímpar de uma pelada entre casadas e solteiras. E, no entanto, na seleção, ela está preterindo alguém que, certamente, vai fazer falta à equipe brasileira. A preterida é a lateral Tatiana. E o mais danoso nessa jogada é que seja por marketing, vaidade, diletantismo, seja porque for, Milene está tirando o pão da boca de uma jogadora pra quem o futebol não é um mero passatempo; é, na verdade, um duro e suado meio de sobrevivência. Só mesmo quem é do ramo sabe o tamanho da provação que tem sido a vida dessas meninas no futebol. A maioria ganha salário mínimo, uma ninharia que nem sempre é paga em dia. O desemprego no feminino é grande. No Brasil, não há nem campeonato.
A seleção precisa do prestígio de Milene, sem dúvida. Mas o lugar dela não é dentro de campo. É na tribuna de honra, como embaixadora do futebol feminino do Brasil. Taí um belo título: embaixadora!
A seleção de tão pobres meninas pobres bem merece as graças de uma menina rica e famosa.
Favoritos e visagens
O campeonato está longe de terminar, mas já se pode avançar uma boa predição: se o título de campeão escapar do Cruzeiro, do Santos não escapará. São esses os dois melhores times do campeonato. Têm ambos o melhor que um time de futebol deve ter: consistência, brilho e dinamismo. O São Paulo, o Coritiba e o Inter correm por perto, mas não passam de meras visagens. Principalmente, o São Paulo. Os três são inconstantes como costumam ser as assombrações.
Domingo, vi o time do São Paulo. É desarranjo só. Na defesa como no ataque. Ricardinho, que sempre foi o cérebro da equipe, está claramente fora de forma. Quem salva o time são os prodígios de Rogério Ceni e de Luís Fabiano. No jogo com o Figueirense, o tricolor paulista passou maus bocados. Empatou uma partida que pendeu, sempre, pro dono da casa.
É bom nem pensar que, a qualquer momento, o arrastão pode levar o Luís Fabiano.
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