A bola de Parreira

Não sou de encher bola de técnico. O rebanho já vive nas nuvens, sempre a conjugar, na primeira pessoa do singular, todos os verbos do futebol. Abro exceção, hoje, pra dizer que, mesmo sem ter dado um chute, sequer, Carlos Alberto Parreira, começou, de pé direito, as Eliminatórias do Mundial-2006.
A seleção parecia engasgada no 1 a 1, quando Parreira, numa decisão bem inspirada, põe no time dois calouros pra dar alma nova à seleção. A mudança torna a equipe mais fogosa, mais brilhante, mais incisiva. Renato marca, desarma e, com dinamismo, infiltra-se, seguidamente, pela ponta-direita, como autêntico atacante. Pelo outro lado, Kaká, mal pisa no campo, já vai mostrando a sua cara. A bola do moço é de rara limpidez.
O gol que fez Kaká, embora fosse de chute frontal, não é de fácil execução, como parece. Quando o chute modifica, radicalmente, a direção da bola, pode ter certeza de uma coisa, caro leitor: o arremate tem que ser feito com extrema precisão. Entre a chegada do passe de Ronaldinho e o chute de Kaká, a bola descreve um ângulo de 90 graus. Em qualquer jogo, mudar a direção da bola exigirá, sempre, um máximo de rigor técnico. Seja no tênis, seja no vôlei, seja no futebol, o risco de erro é sempre grande.
Outro ponto a favor de Parreira é o baixo índice de faltas da equipe. Até parece que a seleção não é da terra do futebol mais faltoso do mundo.
A maioria dos técnicos brasileiros defende a idéia marota de que a falta é parte do jogo. Na verdade, a falta faz parte é do anti-jogo. Um time de alto nível técnico se impõe pela habilidade. A falta abusiva é arma de medíocre. Parreira é um dos poucos que levam o futebol com seriedade. Em dado momento, anotei: com 75 minutos de partida, a equipe brasileira tinha feito apenas seis faltas; nos restantes 15 minutos, a seleção cometeria mais duas. Total de oito faltas. Os colombianos já tinham feito 20. No final: 25.
Parreira teve ainda outro mérito: foi ter escalado Rivaldo, justamente, numa hora em que o nosso ilustre campeão mundial andava de crista baixa. Com a força dada a Rivaldo, o treinador, certamente, está recuperando uma peça valiosa do conjunto brasileiro. Rivaldo é um dos mais brilhantes solistas do futebol-arte.
Luxo só na seleção
O futebol brasileiro, no momento, é luxo só: Alex entra no lugar de Ronaldinho Gaúcho, Kaká entra no lugar de Alex, cada um mais fina-flor que o outro. Lá atrás, Marcos, soberbo goleiro, é reserva de Dida, outra muralha da China. No meio, com a mesma bola cheia e sem arestas, Gilberto Silva e Renato. Quem, neste planeta, ostenta dupla de volantes mais leal, mais sóbria, mais tenaz e mais eficiente?
Lá na frente, seco por uma chance, o indigesto Luís Fabiano, da espécie dos predadores mais ferozes. O calcanhar de Aquiles da seleção é mesmo a zaga central. O Lúcio está mais pra vias-de-fato que pra futebol. E o Roque Júnior, esse seria, talvez, um bom suplente de um certo Alex, que o Santos está curtindo pra, mais adiante, entregar à seleção, no ponto certo.
Rápidas e rasteiras
Na crônica de abertura, esqueci de citar mais uma boa tacada de Parreira: o ''alemão'' Zé Roberto. Ele foi o senhor absoluto da fluente transição defesa-ataque. A técnica individual é apurada e o fôlego é de sete gatos. Pra não ficar só nos elogios, eu diria que Zé Roberto andou prendendo demais a bola. De certo modo, foi melhor assim. O Emerson poucas vezes viu a cor da bola. Passou pelo jogo em brancas nuvens. / / / / / Martina Navratilova ganhou o vice de duplas femininas, no Aberto de Nova York, em parceria com a russa Svetlana Kuznetzova. Martina está com 46 anos. Quer festejar os 50 anos, raquetando no circuito da WTA.
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