Um voto de pobreza

Kaká partiu. O Milan levou nosso craque, no fulgor dos seus vinte anos. Me sinto como no belo samba do Chico. Aquele da Rita, a tal que ''levou o que me é de direito''. Pela transferência, o clube italiano paga ao São Paulo nove milhões de dólares. Uma fortuna? Quem dera! Amigos, no mercado europeu, tal cifra é pouco mais que um troco. Lembro que, no mesmo embalo, o Manchester United está pagando 10 milhões por Kléberson. Se Kléberson vale dez, Kaká vale 15 milhões. Tem mais futebol, é bem mais moço.
Não quero nem falar do Denílson. Vocês se recordam? O Betis, da Espanha, pagou pelo ponta 32 milhões de dólares. Cinco anos depois, o Milan paga 10 milhões por Kaká.
Enfim, dizer o quê? Se no campo, bola no pé, somos um país do primeiro mundo, na balança comercial do futebol nossa cotação empata com os africanos. Lá e cá, somos simples fornecedores de pé-de-obra, como diria o escritor Eduardo Galeano (''Futebol ao sol e à sombra'').
Esta semana, a revista ''World Soccer'', da Inglaterra, já vem falando, com entusiasmo, da renovação brasileira, de olho em Diego, o do Santos. Mais dia, menos dia, é outro que vai bater asas. Eu diria, até, que o craque santista é o primeiro do rico filão de Diegos na mira dos europeus. É esperar pra ver.
O mais dramático dessa pesada sangria é que vão-se os anéis, vão-se os dedos e nada melhora: os clubes continuarão na eterna pindaíba.
Parece até que o futebol brasileiro fez voto de pobreza.
O medalhaço do Pan
O Brasil vai voltar de Santo Domingo coberto de medalhas. Na hora em que escrevo esta nota, o 3º lugar no ranking está brilhantemente assegurado. Ficam os brasileiros abaixo dos Estados Unidos e de Cuba, deixando no chinelo os canadenses e, principalmente, os argentinos. A velha diferença, todos sabem, é sempre com o vizinho. ''Vecinos, pero, distantes...'' Foi boa a performance brasileira? Sem dúvida. Houve conquistas razoáveis em algumas modalidades.
Uma coisa, porém, é bom ressaltar: como a vitória é sempre estimulante, o medalhaço do Pan vai dar frutos, sem sombra de dúvida. A garotada vai se motivar. Nesse ponto, a contribuição da tevê é valiosa. Passou duas semanas, mostrando atletas brasileiros no pódio, moços e moças a cantar, com fervor, o hino nacional.
O outro porém da jornada brasileira vai na direção da cautela. Convém não exagerar na avaliação das conquistas. Contar medalhas, relembrando Winnipeg, tudo bem. Temos mais é que celebrar. Mas, por favor, nada de fazer projeções ufanistas. Atenas será outra história. A lição de Sidney não pode ser esquecida. Chegamos lá, banhados no ouro solar de Winnipeg, e de lá saímos com cara de choro.
O certo, agora, é dar ao triunfo de Santo Domingo um lugar modesto no coração e trabalhar, duro. Criar novos centros de excelência. Apurar, mais e mais, o talento, a capacidade e o entusiasmo dos heróis de hoje.
É assim que o Brasil, um dia, será, realmente, uma potência olímpica.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
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