NA GRANDE ÁREA
Os desafios de um homem
Roberto Marinho. Foram 25 anos de convívio. A Globo era o nosso cotidiano. Tive dele uma delegação de confiança que acabaria se convertendo num dos patrimônios da minha carreira profissional. No trato pessoal, nossa relação foi igualmente proveitosa pra mim. Na hora de qualquer contra-tempo existencial, sempre encontrei nele um ombro amigo. Ele preferia dar conselhos, usando, sempre, a infalível retórica das parábolas. Ilustrava sua opinião, contando um caso do qual fosse personagem ou apenas testemunha.
Um dos prazeres de Roberto Marinho era conversar. Ia dos assuntos mais prosaicos às cogitações mais densas. Falava com impressionante esmero verbal. Tinha o senso da palavra exata. O jeito pausado de se expressar era próprio de quem tinha o cuidado de pensar antes de abrir a boca. De repente, no meio da conversa, surpreendia o interlocutor com uma pergunta, sempre, pertinente. Era uma pausa preconcebida a que recorria pra dar ao ouvinte a chance de também falar.
Conversar, me dizia ele, é uma arte de raro sabor. Jamais será um bom conversador (ele gostava, também, da palavra ''causeur'') alguém que não tenha paciência pra ouvir outra voz que não a sua própria.
Um dos traços mais marcantes da personalidade de Roberto Marinho era a faculdade que ele tinha de dosar o rigor da hierarquia com a doçura da camaradagem. Levou pra Globo a expressão ''companheiro'', com a qual se referia aos colegas de redação, no Globo. Exercia sua liderança, com pulso forte, mas sem perder a serenidade. Puxava as nossas orelhas com dedos de veludo. Jamais elevou o tom da voz pra repreender um de nós. Amenidades ele gostava de compartir, em grupo; cobrança, porém, era como num confessionário: nada de testemunhas. Tinha o dom da conveniência.
Seu estilo suave de ser e de falar sugeria uma mente zen. Aliás, certa vez, almoçando na Globo com uma missão diplomática da China, um dos chineses perguntou-lhe se tinha raízes orientais. Respondeu que não. Era Pizzani, de sangue italiano. O convidado concluiu, então, que, com aquele ar de frade budista, o seu ilustre interlocutor haveria de ter vida longa. Eu, que também participava do almoço, percebi que o chinês acabara de tocar num tema da predileção do anfitrião: a longevidade.
Os dois logo começaram a trocar figurinhas sobre idade: o chinês confessou que tinha 80 anos muito bem vividos; Roberto Marinho retrucou: seus oitenta, mais cinco. Oitenta e cinco e com pressão arterial 12 por sete. Algumas vezes, dispensando o elevador, subia 11 andares, de escada, até chegar à sua sala, na Globo. Chegava inteiro.
Ambos concordaram com a teoria de que o homem é capaz de viver 140 anos, com relativo vigor físico. O chinês até contou o caso de um patrício dele que viveu 700 anos. Roberto Marinho brindou, com vinho, a boa notícia que lhe soava, quem sabe, como um aceno, embora duvidasse que alguém pudesse chegar tão longe, nos dias de hoje.
Chegaria ele pertinho dos cem. Mas, pensando bem, ter vivido com a intensidade com que viveu Roberto Marinho: um homem que batalhou a vida toda; um homem que não tinha medo de topar desafios e que sempre soube distinguir os desafios impossíveis dos improváveis, preferindo, sempre, os impossíveis; enfim, um homem, que aos 65 anos, decidiu desdobrar uma vida já de tantos êxitos pra criar, do nada, uma das maiores redes de televisão do planeta; um homem que transformaria seu império pessoal numa instituição nacional - pensando bem, repito, esse homem transcendeu as medidas do tempo. Já viveu e viverá muito vezes mais que o invejado chinês de 700 anos.
Armando Nogueira
E-mail: [email protected]





