A libertação do goleiro

Bala vai, bala vem, até que, um belo dia, a caça vira caçador. Quem podia
imaginar, há 50 anos, que um goleiro seria capaz de fazer um gol? Quando fazia, com certeza, era contra seu próprio time. Hoje, ser goleiro deixou de ser maldição. Nada mais o condena a viver confinado nos limites de sua área.
Em menos de um mês, dois goleiros decidiram partidas, fazendo, eles próprios, dois gols de cabeça: Eduardo, do Atlético Mineiro e Lauro, da Ponte Preta. Rogério Ceni é o cobrador oficial de faltas à entrada da área rival. Em cinco, acerta, pelo menos, uma. Chilavert consagrou-se, ao mesmo tempo, como goleiro e como artilheiro.
O primeiro goleiro que vi transpor, com frequência, a linha frontal da grande área foi Grocsis, goleiro da imortal seleção húngara de Ferenc Puskas. Grocsis sabia sair de sua área, tocando a bola com os pés. Mas não ousava dar mais que um prosaico passe ao zagueiro.
A resolução da Fifa, acabando com a chacrinha da cera entre goleiro e zagueiros, há de ter sido o primeiro passo da redenção do goleiro. Proibido de usar as mãos se a bola lhe for passada com o pé, o goleiro se sente gratamente desafiado. Ele tem que dar uma de zagueiro, fazendo com os pés o que antes fazia com as mãos.
Hoje, o goleiro é um membro efetivo da equipe. Ele existe além das fronteiras da grande área. Longe vai o tempo em que os inventores do jogo diziam que um time de futebol era formado por 10 jogadores e um goleiro. Como se o goleiro fosse um mero apêndice do time.
''O gol que glorifica o artilheiro é o mesmo que mortifica o goleiro.'' Quando me ocorreu este aforisma não tinha eu a mínima idéia da reviravolta que acabaria dando na completa libertação do goleiro. Hoje, o goleiro pode ser considerado uma peça valiosa no xadrez ofensivo do jogo.
Quem, como eu, viveu na infância o tormento de jogar (por que não purgar?) no gol, comemora, hoje um tanto vingado, cada vez que um goleiro faz um gol, mesmo que seja pra maltratar outro goleiro...
Esta crônica, é dedicada ao legendário Waldir de Morais, ontem, um herói das traves, hoje, um mestre na formação de goleiros, no Corinthians.
Kaká, alvo da má-fé
Kaká voltou a ser fustigado por sua própria torcida. Sábado passado, uma parte considerável da torcida do São Paulo passou o jogo inteiro a xingar o craque, por tudo e por nada. Kaká corria, a camisa ensopada de suor e, ainda assim, era seguidamente hostilizado.
Já pensou, amigo, ser molestado publicamente, em seu próprio campo. Como se Kaká fôsse um réprobo. Como se Kaká não dignificasse a camisa do clube.
Mistérios da alma humana, dirão alguns. Caprichos da chamada massa ignara, dirão outros.
Pra mim, nem uma coisa, nem a outra. Kaká está sendo alvo de uma orquestração política. Trata-se de uma falange de torcedores que, na gestão passada, ganhava um bom pacote de ingressos, de graça. Metade era vendida a cambistas. Um belo negócio pra quem vive de brisa. A nova diretoria acabou com a aliança espúria.
Todo mundo já sabe que clubes europeus estão querendo levar Kaká. O lance do Milan pode chegar a oito milhões de dólares. A diretoria resiste. Quer mantê-lo até 2005. O plano sinistro da má torcida é forçar a saída de Kaká, debitando à diretoria a perda do grande ídolo do clube.
Até que ponto é capaz de chegar a torpeza humana.

Armando Nogueira
E-mail: [email protected]

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