NA GRANDE ÁREA
Brasil, com b minúsculo
A seleção dos garotos do Brasil perdeu a Copa Ouro pro México. Perder, como vencer, é da lei do jogo, que não é outra senão a lei da própria vida. A derrota de domingo, porém, pede, no mínimo, um indignado protesto. Como pode a CBF ser tão irresponsável? É a quarta vez, seguida, em poucos anos, que o futebol brasileiro vai jogar na Cidade do México, em cima do laço, sem o mínimo de adaptação à altitude, como se fosse um time de ciganos.
São quatro derrotas, no confronto com o futebol mexicano, que, todos sabem, não é nada de mais. A seleção mexicana, quando muito, desfila no segundo grupo do futebol mundial. Por que, então, perdeu mais uma vez o Brasil? A meu ver, simplesmente porque a alta direção do futebol brasileiro é, no mínimo, inconsequente.
Já nem falo no mal que causa à reputação do nosso futebol essa história de viver apanhando, sistematicamente, dos mexicanos. E o que mais me choca é a solene indiferença da CBF. A cartolagem não está nem aí.
Submeter criaturas humanas à tão brutal provação física e mental é de uma insensibilidade assustadora. Porque, meus amigos, obrigar uma equipe a jogar futebol a 2 mil metros, sem a devida preparação atlética, é por em risco a própria vida do atleta. Chega a ser crueldade.
Quem já andou lá por cima, como eu, sabe quanto é desconfortável, pra quem vive ao nível do mar, ter que respirar o ar rarefeito e, por isso mesmo, inútil, das alturas. A sensação é de angústia pura. Você sente a vida se esvaindo pela ponta dos dedos. É como se a existência fosse a derradeira chama de uma vela exangue.
Naturalmente, o atleta profissional resiste mais que o comum dos mortais, seja pelo fulgor da mocidade, seja por um natural preparo físico que é elemento essencial de seu ofício. Nem por isso, contudo, deixará de estar em desvantagem, sempre que tiver de competir com uma equipe da terra. Um mexicano daqueles que enfrentaram a garotada brasileira, domingo, tira de letra a carência de oxigênio. Dentro ou fora do campo, ele dispõe, no mínimo, do dobro de glóbulos vermelhos do visitante inadaptado.
Trocada em miúdos, essa superioridade fisiológica quer dizer o seguinte: pra neutralizar a falta de oxigênio no sangue, o metabolismo do montanhês produz um reforço gigantesco no exército de glóbulos vermelhos, glóbulos esses que atuam como se fossem diligentes estafetas, indo e vindo, a transportar pro coração o sangue oxigenado dos pulmões.
Assim, um jogo de futebol a dois mil metros de altura deixa de ser uma simples disputa esportiva pra ser, no duro, no duro, uma batalha fisiológica. Em igualdade de condições técnicas, vai ganhar a guerra, o mais das vezes, quem tiver mais combustível (VO2) pra queimar.
Era de dar pena ver, se arrastando pelo campo, sem pernas, pondo os pulmões pela boca, nossa garotada quase desmaiada por falta de oxigênio no ar.
Pobres meninos do Brasil, maltratados, espoliados pelo outro brasil, assim mesmo, com b minúsculo, que é o brasil da CbF.
Rápidas e rasteiras
Outro dia, o time do Cruzeiro, jogando contra o Vasco, cometeu 10 faltas. Contra o Bahia, parei de contar, quando faltavam dez minutos pra terminar o primeiro tempo. O time de Luxemburgo tinha feito três faltas. Eu disse... três faltas! Quem for bom de bola que siga os passos do Cruzeiro. / / // / A propósito, o Juventude, contra o Fluminense, chegou à cifra despudorada de 43 faltas. Quer dizer; entre chutar a bola e chutar o adversário, essa equipe fez uma opção vergonhosa. Vá ter mau-gosto assim na baixa da égua. Seria o caso de perguntar: o que estará dizendo a seus jogadores o nosso bom Raul Plassman que, quando comentarista, no Sportv, deplorava o ímpeto faltoso do futebol brasileiro?
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Armando Nogueira





