As amargas, não!

Hoje, não quero nem mágoas, nem dissabores. Ignorarei arbitragens desafinadas. Desconhecerei os estúpidos carrinhos. Abstrairei os 90 passes errados de Fluminense-Bahia. Desprezarei, solenemente, a profusão de faltas nos jogos de domingo. Relevarei o encharcado campo da Arena. Esquecerei as bolas perdidas no meio do nevoeiro gaúcho. Estou decidido: hoje, das angústias quero distância. As amargas, não!
Como é grato ver tanto garoto bom de bola, pintando no futebol brasileiro! O aventureiro tinha razão: ''A terra é boa e fermosa: em se plantando, tudo dá.''
Sem contar os Diegos já provados (vocês já notaram quanto de pé tem dado, no Campeonato Brasileiro, esse nome espanholado: pé... e mão?), Em qualquer jogo da última rodada, eu via, pelo menos, uma ardente promessa. O Santos nos brindou com um Jerri e com um Alexandre, ambos empolgantes no jogo com o Coritiba. Ao lado do Renato, o Alexandre, cara de bebê, parecia um aprendiz de príncipe na arte de apoiar com classe e fluência. De onde virá tão surpreendente categoria?
O Coritiba, quem sabe, pra se penitenciar dos memoráveis senões de Odvan, ostenta, do meio pra frente, um jogador de toque refinado. Prazer em conhecê-lo, Tcheco. Teu estilo, em dado momento, chegou a me lembrar o uruguaio Pedro Rocha.
Numa hora dessas, talvez a gente deva dar graças ao futebol europeu que, periodicamente, estende um arrastão e leva embora um punhado de jogadores, permitindo que desabrochem os novos talentos, vindos das chamadas categorias de base. Pelo menos, sob esse aspecto, não é de todo mal que nosso futebol seja artigo de exportação.
O melhor exemplo de renovação é o Santos, que já emplacou duas vitórias seguidas, com uma equipe repleta de calouros. Hoje, mesmo, contra o Corinthians, o Santos joga sem quatro titulares. E se jogar o que jogou contra o Coritiba, ninguém lastimará nem por Alex, nem por Robinho, nem por Paulo Almeida, nem por Diego.
Me desculpem: Diego não dá pra esquecer. Esse é mais que o seguinte...
Retrato de Tostão
Há dias, eu estava vendo o Tostão na tevê, de onde, por sinal, ele desapareceu, por livre e espontânea vontade. Alma contemplativa, ele prefere ficar recolhido no seu pomar, entre pássaros, folhas, frutos e livros, a escrever sua sempre lúcida coluna. Creio que ele tenha aberto uma exceção justamente pra homenagear o aniversário da ESPN Brasil, nos seus oito anos de valiosos trabalhos tele-jornalísticos.
Um mocinho, que via o programa a meu lado, me perguntou se o Tostão era mesmo bom de bola. Soltei o verbo. Bom, não, o Tostão era esplêndido. Meu amiguinho pediu pormenores sobre o estilo, sobre a personalidade do craque, campeão mundial em 70.
Apanhei na estante um livro, precisamente, ''Brasil Brasileiro'', do poeta, cronista e peladeiro Paulo Mendes Campos, e li, em voz alta, o seguinte trecho: ''Mineiro, segundo Guimarães Rosa, espia, escuta, indaga, protela, se sopita, tolera, remancheia, perrengueia, sorri, escapole, se retarda, faz véspera, tempera, cala a boca, matuta, destorce, engambela, pauteia, se prepara.''
Assim era, sem tirar nem por, o extraordinário Tostão, com a bola nos pés.
Rápidas e rasteiras
Tcheco, do Coritiba, saiu de campo, domingo, estranhando que o árbitro Wilson de Souza Mendonça, invariavelmente, não apitava nada nas bolas de córner. Como se plantava atrás do bolo de jogadores, ninguém o via sinalizar com o braço (se é que sinalizava), autorizando a cobrança. Professor Marsiglia, não é estranha a atitude desse árbitro?
Meus leitores do Paraná têm toda razão: é imperdoável que eu ainda não tenha me voltado pro sucesso dos times paranaenses, notadamente, o Paraná e o Coritiba, cuja contribuição ao enriquecimento técnico do Campeonato Brasileiro já merecia um bom registro. Ao fundo, ganhando terreno, célere, o Atlético Paranaense.
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