NA GRANDE ÁREA
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 2003
Armando Nogueira 
Conheci Carlos Alberto Parreira, ali pelo final dos anos 60. Era, então, um jovem e desconhecido professor de Educação Física, sonhando com um lugar ao sol no reino do futebol. Nunca tinha ouvido falar dele, mas, a pedido de um amigo comum, publiquei, então, nesta coluna, uma carta em que ele propunha inovações nos métodos de preparação física.
Desde lá, sempre cultivou um estilo franciscano de vida. Jamais condenou os que o condenavam, nessa fogueira de egos que é o futebol. Durante a campanha do Mundial de 94, apanhou que nem boi ladrão. Campeão do mundo, deu às galas do sucesso um lugar modesto no coração. Até hoje, tem sido assim: em nada é arrogante, nem auto-referente. Nesse ponto, é o oposto de Zagallo, que vive enfiando goela abaixo dos eventuais detratores seu farto rosário de glórias. Por sinal, merecidas, sem dúvida.
Daí ter caído mal a reação do Parreira, atribuindo à imprensa a bronca geral da nação contra o fiasco da seleção na Copa das Confederações. Ele gostaria que os críticos aliviassem a barra da comissão, explicando, aqui e ali, que não poderia ser outro o destino de uma equipe montada na sala de embarque do aeroporto Tom Jobim.
Ora, ora! Se a missão era tão ingrata, por que não proclamou, de saída? Quando o Brasil perdeu de Camarões, Zagallo, que sempre foi o porta-voz da Comissão Técnica, anunciava que ''vamos ganhar os próximos jogos, o Brasil sairá da França com o título de campeão.'' Deu com os burros n'água.
Parreira não foi nada feliz na convocação, na escalação e, mais ainda, na hora em que, culpa a imprensa e se dispensa de dar satisfações à opinião pública, alegando que a comissão técnica está acima de qualquer julgamento. Pois é, justamente, nesse ponto que se evidencia a prepotência da CBF.
Meu bom e franciscano Carlos Alberto Parreira, sei que não seria pedir muito a uma criatura, como você, antes, de hábito, tão compassiva: por favor, leia, com urgência, o livro recém-lançado pela Objetiva, que estou começando a ler e que se chama ''Francisco de Assis, o Santo Relutante'', sobre a vida do homem que santificou a humildade.
Vacilo na Bombonera
Bem que o Santos quis, com devoção, arrancar uma vitória na Bombonera. Bem que o Santos chegou a empolgar, pela técnica e, sobretudo, pelo desassombro. Houve momentos em que o Boca Juniors se encolheu todo pra não tomar um gol que, certamente, atrapalharia sua vida na segunda partida.
Saí do jogo com a sensação de que o time do Santos poderia ter sido menos afoito. Esperava ver, não a retranca, que denota medo, mas uma dose de realismo que lhe desse mais chance de contra-atacar. Que foi exatamente o que fez, com sucesso, o time do Boca. Por sinal, eu que só tinha visto o time argentino uma ou duas vezes, fiquei surpreso com a objetividade e com o padrão técnico dos jogadores do Boca, notadamente, os atacantes. O Delgado e o garoto Tévez foram os heróis da brilhante vitória do Boca.
Louvores também à defesa do Boca, muito bem articulada, e que não deu trégua ao ataque santista. Basta lembrar que ninguém, tendo visto o jogo, será capaz de citar um só lance real de gol na área do goleiro argentino que atende pelo nome indesculpável de Abbondanzieri.
Antes de terminar esta sucinta análise, duas observações: 1) quem dera que o técnico Leão fosse, sempre, tão paciente com os jornalistas quanto foi, naquela partida, com o atacante Ricardo Oliveira, deixando-o em campo, o tempo todo, mesmo sabendo-o inteiramente fora de forma; 2) não entendi a preferência pelo calamitoso (pelo menos naquela noite) zagueiro Pereira em vez de já começar o jogo com o consistente André Luís.
Enfim, pra sair do buraco negro em que se meteu, o time do Santos tem que ser, quarta-feira, no Morumbi, o que o Boca soube ser, na Bombonera.
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