A seleção bastarda

Não tem mais-mais: a seleção pisou na bola e pisou feio. Contra Camarões, foi um pavor; contra os Estados Unidos, pavor e meio. E foi ali que resolvi jogar a toalha, de vez. Pedi aos deuses do futebol que tirassem de mim a tentação de voltar a ver jogo dessa seleção. Chega o jogo contra a Turquia e, por pouco, não tenho uma recaída. Sorte minha: o Faustão, com quem eu almoçava, entre outros amigos, me advertiu: ''Não faça isso! Não perca o seu tempo. Por que a gente não aproveita o encontro pra atualizar a nossa pauta de assuntos?'' O Faustão é bom papo de futebol, de televisão, de vida. Foi um brilhante repórter esportivo.
Rendi-me, então, ao apelo do querido companheiro, com quem eu não conversava, há algum tempo. E não é que salvei a minha tarde? Enquanto o jogo corria e a seleção penava, nós falávamos, com preocupação, da temporada de caça ao talento, deflagrada por alguns jogadores, com a insana conivência de certos treinadores que mandam soltar o pé, sem dó nem piedade.
Parece até que os botocudos sabem que o corpo humano tem precisamente 365 ossos. Com certeza, pra eles, mais um, menos um, não faz a menor diferença...
Fiquei contente de passar a tarde alheio ao jogo e, o que é melhor, sem um pingo de culpa. Tenho uma carreira de mais de meio século consagrada aos encantos do futebol. Por que diabos haveria eu de torrar a paciência que ainda me resta, vendo jogar o Ilan, o Kleberson, o Adriano e o Emerson? Não é que eu pense que tenho um nome zelar. Nada disso. Sucede que, a essa altura do meu já longo e descorado campeonato, eu tenho mais é que me poupar de emoções amargas. Por sinal que, do capitão, eu tinha acabado de ler, naquele dia, uma declaração que me espantou. Reclamava ele da omissão dos atacantes. ''Eles têm que fazer falta lá na frente, pra facilitar o nosso trabalho lá atrás.''
Semelhante disparate foi dito e por dito ficaria. Ninguém tentou, sequer, remendar a heresia. Atacante é pra fazer gol e não pra fazer falta. Até hoje, ninguém esclareceu ao Emerson que a falta não é, como ele pensa, um atributo do jogo; é tão somente um agravo do anti-jogo.
Enfim, sobravam razões pra que eu ignorasse, não só o jogo com a Turquia, mas até mesmo a própria Copa das Confederações, um reles torneio que só existe pra empresário encher a burra, vendendo jogador na estação de transferências no futebol europeu.
A verdade é que, nesse paraíso de complacências que é o nosso País, há duas seleções: a do Brasil, que encarna a alma do povo; e a outra, bastarda, que é mera propriedade comercial da CBF. Ambas usam a mesma camisa, o que não deixa de ser um delito de lesa-pátria, mas que são, em verdade, água e vinho, luz e sombra, sol e chuva.
E porque nada me liga à CBF; e porque sempre devotei profundo desapreço à malta que comanda o nosso futebol; e porque tudo me dá vida e me enternece quando penso e falo e escrevo e relembro cada passo da verdadeira seleção, símbolo vivo da nação brasileira; e porque prefiro viver de saudades a morrer num surto de melancolia, acho que fiz um bem ao meu velho e surrado coração, trocando o jogo de quarta por um bom papo com os amigos. Ao fundo, um belo CD da luminosa Ithamara Koorax, cantando Tom Jobim e Luís Bonfá.
O resto é impostura.
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