NA GRANDE ÁREA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de junho de 2003
Armando Nogueira 
Um fantasma no Mineirão
A ansiedade é um dos grandes fantasmas do futebol. Ninguém vê, mas existe. Enche estádio. Quem duvida, que vá ao Mineirão, logo mais à noite, onde Cruzeiro e Flamengo jogam a partida final da Copa do Brasil. Vai-se repetir com a multidão mineira o que ocorreu, domingo passado, com a carioca, no Maracanã.
O que dá ao jogo de hoje uma dimensão mais que dramática foi o inesperado gol rubro-negro, quando a vitória do Cruzeiro parecia consumada. Ali, naquele chute fatal de Fernando Baiano, Luxemburgo sentiu que a barra iria pesar, hoje. E vai mesmo. Por isso, aquela extemporânea bronca do técnico, findo o jogo, acusando, aos berros, o árbitro Simon de ter prejudicado o Cruzeiro, com os cartões amarelos que afastariam do segundo jogo os dois zagueiros titulares da equipe mineira. A arbitragem de Simon tinha sido muito boa. Os dois cartões, justíssimos.
Uma coisa seria receber o Flamengo, hoje, com uma vitória e com a vantagem de um gol feito na condição de visitante; outra coisa, bem distinta, é entrar em campo, sabendo que, fora o zero-a-zero, há outros escores que favorecem o Flamengo.
Todo mundo sabe que, time por time, o do Cruzeiro é melhor que o do Flamengo. Mas, o futebol tem lá seus caprichos. No jogo do Maracanã, a expectativa geral era de vitória do Cruzeiro. Se o placar tivesse ficado em 1 a 0, já causaria aos mineiros um certo desapontamento. A previsão era de dois pra cima. Acabaria dando um empate raquítico de 1 a 1.
Resumo da ópera: o Cruzeiro, mais que o Flamengo, entra em campo, hoje, sobrecarregado de ansiedade, o tal fantasma que ninguém vê mas que existe; e como pesa na alma de um time!
Bendita Intuição
Canhoto também faz gol de pé direito. Não é comum, mas acontece. Rivellino tem uns quantos. Maradona, também. Nada, porém, que merecesse um poema, como tantos que faziam com a canhotinha que Deus lhes deu. Como o que acaba de fazer Alex, um canhoto ilustre, que defende o time do Cruzeiro.
É que o canhoto costuma ser radical. O destro se defende, se tiver que usar a mão ou o pé esquerdo, pra sair de um aperto.
O canhoto, coitado: há situações em que ele se sente um hemiplégico. Sou um deles e sei quanto me custa escovar os dentes com a mão direita.
Pois olhem só o que fez o Alex, no gol do Cruzeiro, domingo passado, no Maracanã: deixou a bola passar por trás de seu corpo e, no mais puro instinto, deu uma letra, de direita, surpreendendo o goleiro Júlio Cesar. Quer dizer: a direita, notoriamente, cega, analfabeta de pai e mãe, conseguiu executar um golpe de extrema precisão. Bendita intuição!
Um gol de enciclopédia.
Saudades de Araújo
A crônica de domingo, relembrando Araújo Netto, inspirou muita gente a me escrever, exaltando a memória de meu companheiro de tantos anos. A primeira manifestação veio do escritor Fernando Sabino, personagem da história do livro ''Drama e Glória dos Bicampeões'' e grande admirador de Araújo Netto.
Quanto a mim, confesso que me comovi com o registro feito por mestre Alberto Dines, no espaço de seu artigo, sábado passado, no JB. São essas as palavras, ao mesmo tempo, afetuosas e respeitosas, de Dines sobre o saudoso colega: ''É preciso lembrar que Araújo Netto, falecido em Roma na terça-feira, aos 73 anos, além da generosidade e doçura, representa uma geração de jornalistas que fez do esmero sua razão de viver. Exímio no texto e na fotografia, capaz de brilhar na análise de uma partida de futebol ou nas avaliações sobre os meandros do Vaticano. É preciso lembrar que Araújo Netto representa o jornalismo superior e multidisciplinar preito ao leitor universal cada vez mais esquecido. É preciso lembrar que jornalistas como Araújo Netto são capazes de morrer de tristeza e desgosto.''
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