NA GRANDE ÁREA
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de junho de 2003
Armando Nogueira 
As duas pedras do Santos
Vendo jogar o Santos, domingo passado, eu pensava: que bom seria pra quem gosta de futebol que essa equipe estivesse devotada tão somente ao Campeonato Brasileiro. Ter que jogar duas competições simultâneas é como ter de carregar, alternadamente, duas pedras, ladeira acima. Batalhar em duas frentes, com o mesmo exército. Tem um quê de suplício de Sísifo.
Ao contrário do Flamengo que, dizem, tomou de seis do Paraná porque só pensa na Copa do Brasil (haverá sinceridade nisso?), o time do Santos não refrescou um instante, sequer, contra o São Paulo. Por sinal, uma partida emocionante: era o padrão afinado, harmônico, fluente, do Santos, contra os arrancos individuais do time do São Paulo.
Nada mais preciso do que eleger o jogador Júlio Baptista como a momentânea encarnação do time do São Paulo: o time joga aos trancos e barrancos, a bola é permanentemente surpreendida: ora recebe um afago, logo depois, um cascudo. Sem Kaká e sem Ricardinho, o time do São Paulo me lembra um barco sem rumo. Não sei o que seria dessa equipe se lá não estivesse o atacante Luís Fabiano.
Se a metáfora do turfe não o molesta, direi que Luis Fabiano está na ponta dos cascos. Há algum tempo, eu não via um atacante com tanta virtude junta: boa técnica individual, senso de jogo coletivo, força física (colossal!), tino de gol, destemor, obstinação. Luís Fabiano parece ter chegado a um estado de espírito a que jamais imaginei pudesse ele chegar um dia: sangue-frio. Ele trocou o pavio curto que o transtornava até a expulsão por uma dose de indulgência quando alguém o fustiga além da conta. Nem sei quanto pode durar a fase estóica desse vertiginoso atacante.
Uma penca de artilheiros
Feliz do campeonato que pode relacionar tanta gente a fim de gol como o brasileiro deste ano. Você chega ao Cruzeiro e lá encontra dois artilheiros de respeito: Deivid e o colombiano Aristizábal. No Santos, tem Ricardo Oliveira, que, infelizmente, está machucado. Já, já, o Flamengo terá Edílson em forma, tal como ocorre no Vasco, com Edmundo. O campeonato é longo e os incapacitados de momento logo estarão infernizando a pequena a área dos vizinhos.
Por fim, falo dos dois melhores da temporada: Luís Fabiano e Liedson. São dois talentos e dois estilos inteiramente distintos um do outro. Luís Fabiano é um obreiro singular. Cada gol é trabalhado com tenacidade e esmero. Ele pode até liquidar a fatura num golpe fulminante, tipo felino, mas, seu forte é fazer o gol como o desfecho de um processo.
Liedson é outra conversa: ele alveja o gol de lança curta. É súbito como uma faísca. É devastador como um raio. Liedson é um magricela com ar de infância sofrida. Se você o encontrar na rua, sem jamais tê-lo visto jogar, nem de longe imaginará que está diante de um implacável goleador. Um craque do gol.
No jogo do Corinthians com o Vitória, domingo passado, ele fez um giro de 180 graus numa fração de segundo. O zagueiro do Vitória mal teve tempo de agarrá-lo pela camisa. O Leivinha, comentando no Sportv, exaltava a assombrosa agilidade de Liedson que, ao receber a bola de costas, na grande área, faz uma repentina rotação de corpo, contorna o marcador e fica de frente pras traves, em perfeita condição de fazer o gol. Sem falar da impulsão e do senso de ocasião com que faz um gol de cabeça, antecipando-se aos varapaus da defesa rival.
Numa fábula, Liedson representaria muito bem o papel da raposa, animal assim definido no Dicionário de Símbolos: ativo, inventivo, inquieto, astucioso e, ao mesmo tempo, destruidor. Ele fez quatro gols no Vitória, domingo. Acontece que a raposa é, também, símbolo de fertilidade...
E-mail: [email protected]


