NA GRANDE ÁREA
A hora é essa!
O time do Cruzeiro está com tudo: já chegou a 20 pontos ganhos, lidera o campeonato, está jogando direto e bonito. Mas nem assim parece estar prosa. Sabe muito bem que a barra é longa e pesada. Basta dar uma olhada na folhinha: estamos a sete meses e meio de dezembro, que é o fim do caminho. Haja estrada! Foram-se oito rodadas e ainda restam 46. Daí, a sensata decisão de investir na formação de um banco de respeito. Maldonado e Zinho são duas cotas valiosas em reforço do elenco: um traz energia, o outro, experiência.
Vanderlei Luxemburgo é a controvérsia em figura de gente. Adora uma zona de sombra na sua reputação. Uma coisa, porém, ninguém lhe pode negar: a capacidade que tem ele de montar e de liderar, com indiscutível competência, uma equipe de futebol.
O time do Cruzeiro tem se portado, até aqui, com notável senso de oportunidade. A hora é essa. Quanto mais pontos somar, agora, melhor. Rivais de peso como Corinthians, Grêmio, Santos e o tinhoso Paysandu, estão se esfalfando em duas frentes. A ordem é somar pontos enquanto 'seu' lobo não vem... O jogo com o Santos, sábado passado, talvez tivesse sido diferente se a garotada da Vila não tivesse sofrido o pesadelo do Nacional, de Montevidéu, três dias antes.
Essas equipes da Libertadores não têm tempo de pensar noutra coisa. Haja fôlego pra correr em duas direções ao mesmo tempo. Já o Cruzeiro tem estado com a vida ajustadinha: entre duas partidas do campeonato nacional, joga uma da Copa do Brasil, que não chega a ser uma grande preocupação. Tem sabor de treino.
Logo, logo, termina a maratona da Libertadores e o alvo dessas equipes passa a ser o Campeonato Brasileiro.
A análise que acabo de fazer não compromete, em nada, a minha admiração pela campanha do Cruzeiro. A equipe exibe um padrão de jogo ao mesmo tempo vistoso e consistente. Joga com grande fluência e objetividade. Luxemburgo imprimiu um senso coletivo que valoriza a troca de passes. O segredo da equipe, a meu ver, está na ação de conjunto.
Nada ilustra melhor essa verdade que o fato de haver no Cruzeiro três goleadores. Eis aí um exemplo que os outros times deviam procurar imitar pra se livrar da velha concepção do artilheiro único e absoluto, também conhecido como o salvador da pátria.
Nas asas da imaginação
Não tem havido televisão na Série B do Campeonato Brasileiro. A saída do torcedor tem sido o rádio. Volta, assim, o futebol ao reino da imaginação. Venho de lá, dos tempos em que o jogo era reinventado, a cada lance, pelo 'espíquer', com a decisiva intervenção do torcedor. Até hoje não tenho dúvida de que, ali pelos anos 40, devo ter feito a minha parte em algumas vitórias do Botafogo. Glórias anônimas que eu ia celebrar sozinho, tomando uma heróica média dominical com pão-canoa, no Largo do Machado.
José Roberto Torero escreveu, ontem, uma crônica, uma beleza, sobre o futebol antes da tevê. Torero é um moço, não viveu a angustiante experiência de torcer por interposta pessoa. Mas, artista que é, o cronista-escritor retrata com fidelidade os bons tempos do rádio em que o gol entrava pelos ouvidos e ia se aninhar, não no fundo das redes, mas no fundo do coração. O espíquer ia contando e floreando o que estava vendo e nós, torcedores, íamos retocando as jogadas, quando eram as do nosso time. Perseguíamos a vitória, chutando a bola intangível do nosso devaneio. Aquilo, sim, era desdobrar fibra por fibra o coração. Amor de mãe, mesmo.
Torero encerra sua bela crônica, com um alento aos torcedores da Série B: ''Palmeirenses, botafoguenses, lusos, americanos, londrinenses, remistas e tantos outros têm, agora, a possibilidade de voltar à era do rádio. Para eles, não existe a crueza definitiva da imagem, mas a imprecisão da oralidade, que nos obriga a preencher certos vazios com a imaginação. Em certos casos, pode ser uma vantagem.''
E-mail: [email protected]





