Noite de melancolia


Tenho um velho amigo, o Severino, que é vidrado em futebol, mas não torce, especialmente, por nenhum clube. Pelo menos, é o que já concluí, depois de muitos e muitos anos de convivência. O Severino gosta mesmo é de bola rolando. Quando vê um bom jogo, não deixa de celebrar, tomando um trago com amigos. Ergue o copo e faz dois brindes: um, ao dom da amizade e outro, não menos efusivo, à beleza do futebol.

Domingo passado, o Severino me telefonou, desapontado. Não tinha visto um único jogo que merecesse saudação. Fora o jogo do Cruzeiro, na véspera, o fim-de-semana tinha sido só decepção. Concordei. Me virei a tarde toda, de canal pra canal e não vi uma partida que me agradasse. Só não diria que perdi, de todo, meu tempo porque é assim que ganho o meu pão de cada dia.

Fluminense x Vasco simbolizou a mediocridade no futebol. Foi simplesmente de amargar. Jogada às seis da tarde, a partida do Maracanã só veio agravar a sombra de melancolia que desce sobre todos nós ao anoitecer de um domingo.

De bola cheia

O único momento realmente empolgante de domingo foi quando o atacante Sandro Hiroshi driblou meia defesa do São Paulo, marcando o gol mais bonito do fim-de-semana. É irrefutável que o gol é e sempre será o desfecho de uma ação coletiva. Há, porém, certos gols cuja execução é de tal modo perfeita que até faz esquecer os lances que o precederam. Foi exatamente o que se deu com o Hiroshi. A bola que recebeu não vinha com aquela pinta de meio gol. Entre ele e as traves, havia uma pequena multidão de corpos a ultrapassar. O espaço era mínimo, o tempo, nenhum. Pois o atacante driblou um, fintou outro, e, num piscar de olhos, chutou, com rara precisão, fora do alcance de Rogério Ceni.

Merecia um brinde do Severino.

Cavalheiro do futebol

Confidência que ouvi de gente do São Paulo: não foi nada fácil sustentar o elã do time, a partir do momento em que chegou aos jogadores que Oswaldo de Oliveira tinha sido dispensado. A equipe, sem exceção, jogou de luto contra o Figueirense.

É bem o caso de perguntar: quem não considera Oswaldo de Oliveira uma pessoa de bem, um excelente treinador e um cidadão de primeira classe? Que eu imagine, só mesmo a direção do clube e um bando de energúmenos que engrossam a torcida do São Paulo.

O São Paulo pode abrir mão de Oswaldo de Oliveira, o futebol, não pode.

Relembrando o Jajá

Toda hora, estamos vendo a seguinte cena: um craque dominando uma bola e sendo fustigado por pés medíocres, procurando, a todo preço, tomar-lhe a bola. O flagrante me faz lembrar de um jogador chamado Jair da Rosa Pinto, astro da seleção. Jogou no Flamengo, no Vasco, no Palmeiras, jogou no Santos, de Pelé. Magrinho, um fiapo de gente. Tinha as pernas tão finas que pareciam dois tacos de bilhar. Mais batia forte como Marcelinho.

Um dia, quando ele ainda jogava no Madureira, o marcador dele, chamado Arati foi num treino o Arati, querendo tirar a bola, ficou chutando por trás as pernas de Jair. Pelas tantas, o craque perdeu a paciência, apanhou a bola com as duas mãos e ofereceu ao Arati:

- ''Assim, você acaba quebrando a minha perna. Toma logo ela, se é isso que você quer. Pode levar. Leva pra casa, é tua.''

E-mail: xapuriarmandonogueira.com.br

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