NA GRANDE ÁREA
Profecia não dá!
Vem aí um pega do maior respeito: São Paulo e Corinthians vão decidir o Campeonato Paulista, em dois jogos que, esperamos, serão dois portentos. Há um mês, se tanto, ninguém daria um tostão por esse clássico. Os dois times andavam mal das pernas e da cabeça. O Corinthians, vítima de inesperada troca de técnicos, vivia procurando pelos campos os traços de sua própria identidade.
Por sua vez, o São Paulo, contrariando a tradição de clube elegante, consumia-se em futricas internas, que abalavam a auto-confiança do elenco, a começar pelo treinador, alfinetado, continuamente, por um diretor encrenqueiro.
Bom, mas o que importa, a essa altura, é que os finalistas vivem um momento de inegável evolução técnica e mental. O time do Corinthians mais que o do São Paulo. Não estou, assim, otimista pela exibição contra o Palmeiras. O técnico Jair Picerni tem muito a ver com a contundência daquela vitória corintiana. Não fosse contra a ética do esporte, Picerni até que merecia um prêmio do adversário. O técnico desfigurou ainda mais uma equipe já de si desfigurada. Deu a cara a tapa, oferecendo colossais avenidas por onde desfilava o time do Corinthians, como e quando queria. Foi um ameno e galante passeio.
O certo é que o time do Corinthians dispõe, agora, de algumas tramas quase sempre muito bem sucedidas. Ora o time ataca em triângulos por qualquer dos dois lados; ora, contra-ataca, com dois atacantes de alta velocidade, dois predadores implacáveis: Gil e Liedson, dois felinos de raça. Ao fundo, move-se o talentoso Jorge Wagner, autor de passes precisos e incisivos. É precisamente por aí que começa a dor de cabeça de qualquer adversário do Corinthians.
O time do São Paulo esbanja recursos técnicos. Tem dois atacantes do melhor quilate, que são o Kaká e o Reinaldo, que trocam passes como quem troca amabilidades. De repente, a bola cai nos pés implacáveis de Luis Fabiano, a bem da verdade, um predador ainda mais insaciável que Gil e Liedson. Há momentos de requinte, nessa equipe que bem me lembra o Real Madri, cuja bola circula magicamente na milionária ciranda Zidane-Figo-Ronaldo-Raul-Roberto Carlos. Contudo, tal como o time espanhol, o do São Paulo não resiste a um bom contra-ataque. A zaga tricolor é vulnerável, tanto na antecipação quanto na cobertura. Daí, a cautela com que Oswaldo Oliveira anda travando o quanto pode os avanços do lateral Gustavo Nery. E como o outro lateral, Leonardo, não ousa ir além da meia-sola, o time do São Paulo tende a atacar pela faixa central, valendo-se da troca de passes curtos. Ora, todo mundo sabe que o passe curto só dá certo se for rápido e extremamente preciso. Acontece que o futebol é um jogo feito muito mais de imprecisões que exatidões.
Bom, nadei, nadei, nadei e não disse quem vai ganhar o jogo, aliás, os dois jogos. O leitor, porém, há de me perdoar. Afinal, não sou profeta e quando pretendi ser coisas da juventude quebrei a cara. Até que, numa providencial leitura de insônia, aprendi com o genial Quevedo que ''muitas coisas nos deixaram as antigas profecias: disseram que, em nossos dias, será sempre o que Deus quiser...''
Papo sobre craque
A questão, por mim proposta, sobre o melhor momento pra se chamar de craque um jogador que promete, ganhou mais alento com a opinião de Zé Geraldo Couto. Ele vai além da simplificação, com a teoria, inspirada em Ezra Pound, segundo a qual o artista (e o jogador de futebol, quando bem dotado, não é outra coisa) está sujeito à seguinte classificação: ou é mestre, ou é inventor ou é um mero diluidor. Pra começar pela última categoria, o diluidor não é capaz de criar nada. Só copia o que já existe. O inventor, como a palavra sugere, é o jogador que enriquece o repertório dos mestres com jogadas impressentidas.
Por fim, o mestre, que vem a ser a encarnação do próprio requinte: dribla bem, passa bem, lança bem, cabeceia bem, chuta bem. Às vezes, o mestre se soma ao inventor, como é o caso de Pelé.
A tese é interessante, mas o brilhante colega não falou, especificamente, nem de Diego, nem de Robinho, justamente, os dois garotos que provocaram o (salutar) debate.
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