NA GRANDE ÁREA
Robinho confirma, em inquérito esportivo, que o árbitro Anselmo da Costa, do jogo Santos x Paulista ameaçou expulsá-lo de campo se ele insistisse em abusar do drible. Contado, assim, ninguém acredita. Mas que é verdade, ninguém duvide. Há quem considere o drible apenas um mal desnecessário. Pra muito técnico, é atraso de vida; pros energúmenos, é desfeita.
Conto sempre um episódio de que foi testemunha o nosso Zico. Há alguns anos, passava ele pelo campo do Flamengo, quando ouviu o técnico do juvenil, no treino, dar uma bronca tremenda em alguém. Parou e viu tudo: o feitor esbravejava com um dos guris que estava driblando, quando devia passar a bola a um companheiro, o mais depressa possível.
Quem não conhece a clássica história do juiz Amílcar Ferreira? Certa noite, no Maracanã, ele jurou Garrincha de expulsão se ele continuasse a debochar do lateral do América, com seus dribles de efeito. Policial que era podia até ter algemado Garrincha.
Garrincha foi, seguramente, o driblador mais fustigado da história do futebol brasileiro. Se o drible não fosse a sua própria natureza, ele teria se transformado num pontinha como outro qualquer, desses cujo estilo bem comportado a crítica medíocre costuma elogiar. Seria, então, um jogador tecnicamente correto...
Estou me lembrando de dois narradores de rádio e tevê que implicavam, cruelmente, com os dribles de Garrincha. Um se chamava Tabajara (Tajes, seria?). O cara passou a Copa de 62, inteira, infernizando o coitado do Garrincha. Dizia que Garrincha esperdiçava os ataques da seleção com sua teimosia em prender a bola. Prender a bola! Quem merecia ser preso era o próprio Tabajara.
Ari Barroso era o outro desafeto dos dribles de Garrincha. Toda vez que Garrincha pegava na bola, começava a lengalenga dele: ''Garrincha está com a bola. Olha lá, olha lá, ele vai querer driblar e vai perder essa bola!'' Garrincha chegava à linha de fundo, e quando não fazia, ele, um gol, punha um colega na cara do gol. Mas Ari não se penitenciava. Voltava, sempre, a pegar no pé do ponta
Até que um dia, Ari jogou a toalha, confessando a seu amigo de copo e de vida, o poeta Paulo Mendes Campos: ''Paulinho, cansei de morder a língua. O Garrincha me derrotou. O cara é um demônio no drible.''
Os ingleses tinham um grande driblador, ponta-direita, também. Chamava-se Stanley Matthews. Driblava a própria sombra e era, por isso, idolatrado na Inglaterra. Foi condecorado com a Ordem da Jarreteira e a rainha Elisabeth II concedeu-lhe o título de 'Sir'.
Há poucos dias, li que o técnico Renato Gaúcho teria recomendado ao jovem Carlos Alberto mais comedimento no ato de driblar. Carlos Alberto é um talento e tanto. Mas a nova ordem é esta: drible, só perto da área. Ora, o drible não é, senão, um sopro divino. É como um verso. É como uma canção. Nasce, inesperadamente, irresistivelmente. Drible é invenção e invenção ninguém planeja. O drible simplesmente acontece e acontece a despeito do driblador.
Conto sempre um caso antológico ocorrido no Botafogo e que não é molecagem do Sandro Moreyra. Sucedeu, mesmo. Zezé Moreira era vidrado em tática. Armava o time, seguindo os ditames das pranchetas. O jogador, pra ele, era uma peça que ele movia como um bom enxadrista.
O homem cismou que Garrincha subvertia suas teorias, driblando além da conta. Que fez Zezé, um dia? Em dado momento, suspendeu o treino coletivo. Mandou o time inteiro ficar sentado no grande círculo. Pegou, então, uma cadeira e pôs, bonitinha, bem na quina da grande área. A cadeira era o marcador de Garrincha. Entregou a bola a Garrincha e mandou que ele viesse, correndo, de lá da linha central. A ordem era: assim que deparasse com a cadeira, Garrincha tinha que centrar a bola pra área.
Lá vem Garrincha, tocando a bola, em alta velocidade. De repente, à sua frente, a cadeira. Garrincha não hesitou: enfiou a bola entre as pernas da cadeira, apanhou adiante e, como o goleiro estivesse sentado no grande círculo, ele aproveitou e entrou no gol com bola e tudo.
Esta crônica vai pros dribles de Robinho, com todo o meu entusiasmo.
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