NA GRANDE ÁREA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de janeiro de 2003
Armando Nogueira 
Giba cai em desgraça. Encontraram vestígios de maconha no exame de urina do herói do vôlei. A primeira pergunta é esta: maconha é doping? Doping, que eu saiba, é estímulo artificial. O atleta usa e abusa de substâncias químicas pra melhorar seu potencial físico. Bem, está provado que a maconha é absolutamente inócua. Até hoje, a medicina não concluiu que afete o rendimento físico ou mental do atleta. Pra mais, ou pra menos. Então, vem a outra pergunta: se não é doping, por que a maconha entra na lista negra do COI?
Quer me parecer que estamos diante de um caso de distorção. O exame de doping não deve ir além de seu propósito, por sinal, saudável, de assegurar a lisura da competição e, naturalmente, de proteger a saúde do atleta. O caso nos leva ao plano ético.
Ora, amigos, se a maconha não interfere na performance atlética, então, que diabos tem a ver a medicina esportiva com o pito de Giba? Ah, a intenção seria zelar pela saúde do atleta? Louvável, sem dúvida, mas, então, por que o COI ignora o estrago que faz o tabaco no corpo humano? E o álcool, que também é altamente nocivo? Quer dizer que cigarro pode. Charuto pode. Rapé também pode. Com certeza, nenhum desses tóxicos figura na relação dos venenos proibidos.
Entendo que a ética do esporte não veja com indiferença o uso de maconha. Duvido até que não faça mal à saúde. O aparelho do esporte não pode descuidar das transgressões às normas morais. A maconha está comprometida com o narcotráfico, o que a condena. Não é inocente, mas não sendo estimulante, deve ser muito mais uma preocupação da ética do que da pura medicina esportiva. Entendo, até mesmo, que psicólogos do esporte tentem fazer a cabeça do atleta, pra tentar livrá-lo de um vício tão malvisto pela sociedade. Mas que o faça com a devida discrição. No mano a mano. Sem caráter punitivo. Sem expor publicamente a pessoa à maldição do preconceito.
Embora eu sempre tenha dito que, nesta coluna, como no jogo do bicho vale o escrito, às vezes, há quem goste de navegar nas entrelinhas de meus textos. A essa classe de leitor esclareço que não estou fazendo a defesa da maconha. Longe de mim. Não tolero fumo de qualquer natureza, sou um cruzado contra o tabaco e, em matéria de álcool, não vou além de um copo de vinho, ao jantar.
A meu ver, porém, a punição e a divulgação de casos como esse de Giba ofendem a sagrada privacidade da criatura humana e, em nada, ajudam a reputação do esporte.
Angu de caroço
O tênis feminino, hoje, resume-se a uma família. As irmãs Williams papam todos os torneios. Curioso é que, na comparação com o masculino, os papéis se inverteram radicalmente: a força física está prevalecendo no circuito das mulheres. Não há mais diferença entre o saque de Venus ou de Serena e o saque da grande maioria dos rapazes. Elas estão sacando a 200 por hora, a três por dois. A caravana feminina vai passando, irresistível.
Agora mesmo, no Aberto da Austrália, deu pra ver, claramente, que a diferença começa pelos músculos. Não há um só tenista que tenha, proporcionalmente a massa corporal de Serena ou de Capriati, cujo deltóide, por sinal, é de fazer inveja a qualquer fisiculturista. Os bíceps da belga Kim Clijsters estufaram da noite pro dia. A moça, hoje, é um armário de escassa feminilidade.
Compare o físico do Hewitt ou o Agassi ou do Guga ou do James Blake com o das estrelas do feminino. Numa queda de braço com qualquer dos citados, sou Serena, sou Venus, sou Capriati, sou Clijsters e dou o empate a quem apostar nos marmanjos.
Tem caroço nesse angu. Que tem, tem.
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