NA GRANDE ÁREA
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de janeiro de 2003
ARMANDO NOGUEIRA 
O mês de janeiro reaviva a lembrança de Garrincha. Os jornais, as rádios, as tevês abrem espaço e tempo pra exaltar um artista admirável. Garrincha foi o maior exemplo de espontaneidade que conheci num campo de futebol. A memória dirá que ele foi a sublimação do drible. É um reconhecimento, sem dúvida, mas, certamente, incompleto. Garrincha foi muito mais do que um driblador irresistível.
Outro dia, vi um teipe de 62, no Chile. Naquele Mundial, Garrincha alcançaria a plenitude do futebol. Quando ninguém esperava, o ponta-direita linear surpreende e se transforma no atacante esférico. O solista sempre desgarrado pela ponta, subitamente, se transfigura. Somam-se no mesmo espanto duas genialidades. Garrincha vira Pelé, em tudo que tinha Pelé de atacante maravilhoso. Garrincha sai da ponta e vai pro meio, e sozinho, consegue transtornar a defesa britânica. Dribla, passa, cabeceia e chuta. Ao mesmo tempo, faz todo mundo lembrar e esquecer Pelé, que tinha sofrido uma distensão de virilha e estava, irremediavelmente, fora da Copa. Foi o Mundial de um só jogador. Garrincha fez até gol de cabeça e de perna esquerda. A Copa que o descobrira na Suécia, acabaria por eternizá-lo nos campos de ViÀa del Mar e de Santiago do Chile.
Corre o jogo Brasil-Inglaterra. É falta contra os ingleses. Esse era um momento solene, desde o Mundial de 58. Ninguém jamais ousou disputar com mestre Didi a prerrogativa de uma cobrança, pertinho da grande área. Dali, era com ele mesmo, por direito de cátedra. Quando muito, o mestre consentia que um colega ficasse junto da bola, mas desde que servisse ao jogo de cena pra enganar o goleiro.
Vamos ao lance. Didi toma distância, solene como ninguém; principesco, como sempre. Mal inicia o primeiro passo, eis que é ultrapassado por um vulto. É Garrincha que, sem pedir licença, vem por trás, correndo e desfere um chute certeiro: gol do Brasil. Didi não se sentiu afrontado. Em Garrincha, Didi perdoava tudo.
Relembro o Garrincha múltiplo do Mundial de 62, não com a intenção de proclamar qualquer superioridade dele sobre Pelé. Até porque tenho boa memória e me lembro que, num certo Brasil-Argentina, numa noite dos anos 60, no Maracanã, eu vi Pelé descambar pra ponta-direita e, por ali, durante alguns minutos, fazer um solo de dribles, dignos dos prodígios de Garrincha.
Passaram-se 40 anos desde o esplendor de Garrincha, no princípio dos anos 60. Até hoje, não me preocupei em descobrir qual dos dois terá sido o melhor. Garrincha e Pelé são incomparáveis e o que a mim me importa, de verdade, é que tive a ventura de vê-los, íntegros, na sua sublime inspiração. Pelé, magnífico, na arte de fazer um gol de placa, e Garrincha, estonteante, no mistério de aturdir o instante do drible.
Se Garrincha era capaz de encarnar Pelé e se Pelé era, igualmente, capaz de encarnar Garrincha, só me resta canonizá-los neste meu instigante dogma: Pelé e Garrincha são as duas principais pessoas da santíssima trindade do futebol. Amém.
Oldemário, uma legenda
A travessia 2002/2003 tem sido impiedosa com o universo do futebol. Perdemos dois jogadores admiráveis, dois cavalheiros dos campos: Joel Martins e Julinho. Agora, vai o terceiro e grande personagem do futebol, de cuja carreira sou privilegiada testemunha. Falo do jornalista Oldemário Toguinhó. Conheci-o, ali pelos anos 60, dividindo com ele um espaço de trabalho e de afeição na redação do Jornal do Brasil.
Em 40 anos de repórter, Oldemário só vestiu uma única camisa a do JB. Cobrimos juntos o Mundial de 66, sob a liderança de Carlos Lemos, querido companheiro, a quem o jornalismo esportivo deve a descoberta do grande Oldemário. Lemos apostou e acertou na aposta.
Oldemário se consagraria como o mais vibrante e competente repórter esportivo do Brasil. Que Deus o tenha.
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