Um naufrágio...

Domingo plural. Domingo de tantas dores e de mil louvores. Tarde de sagrações, de maldições. Tarde de lágrimas, umas triunfais, outras tantas abissais. Dos que se salvaram do desterro, como Inter e Bahia; dos que, heróicos, transcenderam o vazio do nada, como o Fluminense; dos que despencaram, sem piedade, como o Palmeiras, o Botafogo, a Portuguesa e o Gama. Poente de tantos desenganos. Vozes modulando soluços na procissão dos vencidos.
Alguém me pergunta se a Segunda Divisão é, mesmo, o fim do mundo. Respondo, com uma pontinha de humor, que não é o fim do mundo, não senhor, é bem pior... A resposta enfureceu alguns leitores que me escrevem, inconformados com os exageros do meu juízo. Ora, amigos, o que pretendem os que lá batalham, senão chegar à Primeira Divisão? Ou, até mesmo, fugir aos tormentos da Terceira Divisão?
É, justamente, o extremo de dificuldades que torna a Segunda uma competição por todos temida. Os jogadores se superam na justa ambição de subir pra melhorar de vida. Cada partida é uma provação. Ninguém refresca. Não tem suplico. É vida ou morte.
Outra história: as torcidas do Corinthians e do Flamengo festejaram, domingo, o degredo do Palmeiras e do Botafogo. A paixão, quase sempre, tende ao desvario. Estranho é o ser que habita uma arquibancada. Não basta ser feliz, é preciso que o outro não seja. De que são feitas muitas das glórias corinthianas se não de memoráveis embates com o Palmeiras? Quantas vezes o Flamengo tem sido mais Flamengo justamente por ter derrotado o Botafogo? Sem eles, não perderia a luta um tanto de sua graça? O que é melhor: enfrentá-los para se engrandecer, ou vê-los pelas costas, o que não rende glórias a ninguém? Ruim com eles, pior sem eles...
Não entenderei jamais que alguém se sinta feliz de ver o naufrágio de um barco tripulado de sonhos e de glórias.
Em campo, a seleção
A primeira fase do Campeonato Brasileiro foi das boas coisas da temporada. Profusão de gols, uns bonitos, outros nem tão bonitos, mas, certamente, emocionantes. Gente nova pintando, como dois Diegos, um goleiro e um meia-atacante, o liso e arisco Robinho, o idem, idem Paulinho, todos promissores. O rol das gratas novidades inclui, ainda, os jovens goleiros Fábio (Vasco), Júlio Sérgio (Santos), Eduardo (Atlético Mineiro), Edson (Figueirense). O Diego, lá de cima, joga no Juventude. Todos merecem as boas-vindas de quem ama o futebol.
Fiz uma seleção do campeonato, até aqui. Começa com Rogério Ceni, que encarna o goleiro moderno. Como moderníssimo é, também, o ala artilheiro Mancini, que tem tido um ano esplêndido. Formam a zaga central Fábio Luciano, do Corinthians, e Dininho, do São Caetano. Na lateral esquerda, o corinthiano Kleber, que faz bem feito o seu papel, sem pressa, sem precipitações. Pelo meio, somando volantes e meias, escalo Fábio Simplício, Kléberson, Ricardinho e Kaká e, lá na frente, dois artilheiros: Rodrigo Fabri e Luis Fabiano.
O treinador da primeira fase é Oswaldo Oliveira, com honras ao trabalho de Geninho, no Atlético Mineiro e de Tite, no Grêmio.
O predestinado do gol
Tiremos o chapéu pra Romário, o taumaturgo da grande área. Passam-se os anos, tudo passa, pela grande área, só Romário não passa em brancas nuvens. Romário chuta e, numa centelha, converte angústias em esperanças. Foi assim. Quando tudo parecia perdido, ele deu a vitória ao Fluminense, num lance de cartas marcadas. Romário não roubou a bola do zagueiro Marinho, como se disse. Ninguém rouba o que é seu por natureza. Aquele gol foi obra de alguém que conhece a pequena área como a palma da própria mão. É uma sina inteira, ali vivida. De lá, ele retira, com a bola, sua lira, os dons da vida. Doce lida.

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