Uma vertigem

Não me lembro de ter visto, ultimamente, um campeonato assim, tão excitante. Já lá se foram centenas de partidas e não há, nem houve, uma só, em qualquer campo que não implicasse uma dose de risco pra qualquer das equipes. É de tirar o chapéu pro valor dos times e também pra quem fez a fórmula de disputa. O campeonato tem sido um frêmito só, o tempo todo. Tanto na turma de cima, como na de baixo, como na do meio.
Estamos a duas rodadas das quartas-de-final e, na ponta do lápis, só há uma equipe, vagando no limbo, que é o Atlético Paranaense. Solitário na tabela. Me lembro o anacoluto boiando numa frase. Pro atual campeão brasileiro, tanto faz ir pra frente como ir pra trás. De sua posição pra cima, contam-se nada menos de 13 equipes engalfinhadas por um lugar na ceia dos oito finalistas.
Os já eleitos, inclusive, também têm valiosas regalias a conquistar. Vejamos o caso do São Paulo e do São Caetano. Ambos já estão pra lá de classificados, mas, nem por isso, podem se acomodar. Seria um erro ignorar importantes prerrogativas a seu alcance. Vejam o que reza o regulamento: os quatro primeiros decolam, com a vantagem de jogar por dois empates ou por dois resultados iguais. Sem esquecer, ainda, o bafejo de jogar em casa a segunda partida do mano a mano.
Do limbo pra baixo, há um cortejo de 12 equipes igualmente ameaçadas pela esfinge do rebaixamento. Umas, muito mais, outras, muito menos. Todas, porém, estão sob risco de cair. Não dá pra se acomodar. Claro que não vou comparar, por exemplo, a sorte do Figueirense ou do Guarani com a do Gama, do Botafogo e do Palmeiras. O Gama, pela aritmética dos coveiros, já está mortinho. O Botafogo estrebucha nas vascas da agonia. O Palmeiras tem, hoje, sua derradeira chance de salvar-se. Grande Palmeiras, quem diria! Ah, como era verde o meu vale!
Bruxo ou amuleto?
Carlos Alberto Torres virou milagreiro do futebol carioca. Misto de sacerdote, mago e amuleto. Ninguém contesta que seja bom técnico. Mas, tudo faz crer tenha sido chamado pelo Botafogo, por superstição. Certa vez, ele salvou do rebaixamento o Botafogo; depois, salvaria o Flamengo, quase vítima do mesmo desterro. Agora, outra vez, o Botafogo se socorre do ''Capita''. Mais que técnico, foi chamado como bruxo. A seus fluídos se atribui a vitória, impensável, contra o Corinthians.
Como nem teve tempo pra falar de tática com o time, Carlos Alberto Torres só pode ter operado, mesmo, no misterioso universo da superstição. No futebol, a superstição é uma espécie de sub-religião em cujo evangelho há muito de medo, muito de esperança e muito mais ainda de fantasia.
O gol da redenção
Ah, amigos, meu personagem da semana é daqueles que inflamam a multidão. É daqueles que, numa centelha, fazem um gol de redenção. Mesmo que o gol tenha sido de pênalti. Falo do rubro-negro Athirson, jogador-símbolo de uma vitória épica no jogo do Flamengo contra a Portuguesa. Athirson tinha chutado fora um pênalti. O erro, que poderia ser fatal, em vez de abatê-lo, pelo contrário, redobrou-lhe o ânimo. Amigos, é o revés que faz o herói. Athirson foi heróico. Arrebatou-se. Armou, desarmou, defendeu, atacou, convertendo-se no arco de todas as manobras do time do Flamengo. Até que veio o segundo pênalti. O jogo estava 1 a 1. Athirson não conversou: pegou a bola, e como se dissesse é comigo mesmo, chutou no canto direito do goleiro Bosco. Era o gol do triunfo. Era o gol da libertação. O gol que virtualmente salva o Flamengo do desterro da Segunda Divisão. Athirson é meu fulgurante personagem da semana.

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