Aurora de campeões

O dia não começara nada bem. Guga tinha se rendido ao novato Paul Henri Mathieu, que o derrotou na final do Torneio de Lyon. Tamanha tinha sido a superioridade de Guga, inexpugnável, no primeiro set, que ninguém poderia imaginar o colapso de nosso herói solitário nos dois sets subsequentes.
Desliguei a televisão e fui à vida, até que chegasse o futebol e, logo depois, o vôlei. Se a manhã fora de desencanto, com o tênis de Guga, a tarde seria de entusiasmo com o time do Santos. Quanta fluidez, quanta leveza! A garotada da Vila, tal como diria Noel Rosa, ''não quer abafar ninguém; só quer mostrar que faz samba também.''
Enfim, é chegada a hora do vôlei. Depois que aboliram a exasperante vantagem, que significava tempo morto, o vôlei tornou-se um jogo vertiginoso. E assim seria a final Brasil-Rússia, no Luna Park, de Buenos Aires. Ponto a ponto. Gota a gota do mais sofrido suor. Ninguém respirava. Nem na quadra, nem em torno dela. Eu, por exemplo, de vez em quando, eu mal suspirava. Anseio de vitória. O ginásio, porém, não transpirava calor humano, a não ser nos limites da quadra, cuja rede aproxima e divide. A torcida argentina, por razões históricas, comportava-se como platéia de ópera. Silenciosa.
Cada saque era um sobressalto: André Nascimento. Cada bloqueio, uma devastação: Gustavo. Cada defesa, um mergulho no insondável: Escadinha. Cada cortada, um furor: Henrique. Momentos de Dante e Rodrigão. Não deixou de ser assim um instante que fosse. Que eu me lembre, jamais terei visto, na saga do vôlei, uma partida de tal intensidade. Os jogadores tinham que oscilar, o tempo todo, entre a incerteza e o arrebatamento, entre o temor e a bravura. E fato raro: foi um jogo sem gradação emocional. Começou no climax e no climax se manteve até o fim. De matar!
Noite memorável. Noite de angústias e de prodígios. De revelações e de confirmações. Noite de Nalbert, guerreiro múltiplo na liderança, na perfeição técnica, na lucidez tática, na potência do golpe: granada de mão. Noite de Giba, cujo olhar heróico vasava a malha da rede inviolável, a cada enterrada vencedora. Olhar que fulmina. Noite de Maurício e de Ricardinho, cujas mãos afagam a bola de seda que logo será bola de ferro no incandescente punho de Anderson, recém-chegado à legião dos heróis. Encarnação de Giovane, mito olímpico de tantas e épicas conquistas. Noite de Bernardinho, coração que pensa alto, certo e na hora precisa.
Há noites que quando chegam pedem o verbo raiar. Aurora de estrelas. Aurora de campeões.
O andar da carruagem
A quantas anda a classificação das equipes no Campeonato Brasileiro? Quem me dá a dica é Lauro Araújo, meu incansável guru informático. É ele que me socorre na hora dos números. Sempre um indigente nas quatro operações fundamentais da aritmética. Vamos lá: Lauro reparte os 26 times em quatro turmas: a primeira, que eu chamaria a comissão-de-frente, é formada por São Caetano, Santos, Juventude e Corinthians, todos roçando os 90% de chance de chegar à segunda etapa. A posição mais consistente é do São Caetano, já perto dos 95%.
Logo abaixo, vem a tropa que varia entre 55% e 80% de se classsificar e que é formada por Guarani, São Paulo, Coritiba e Ponte Preta. A Ponte fecha a raia do páreo, com pouco mais de 50%. Já o Guarani, ao contrário, é o primeiro da turma, com quase 80% de chance de entrar.
Agora, é a vez do terceiro pelotão que alinha o Atlético Mineiro, o Grêmio, o Atlético Paranaense, o Vitória, o Inter e o Cruzeiro. Nesse grupo, as chances vão de 15% a 25% de probabilidades de passar pelo gargalo. É a turma do sereno.
Fluminense, Flamengo, Botafogo, Figueirense e Portuguesa têm parcos 10% de chance. É pouco, muito pouco. Não dá mais pra sonhar com o privilégio de entrar no clube fechado dos oito. Pior: não está livre de despencar na pirambeira da Segundona.
Por fim, a turma dos desenganados, a saber: Paraná, Vasco, Bahia, Gama, Paysandu, Goiás e Palmeiras. Dos sete, quatro estão jurados. Quais seriam eles? Não ouso fazer profecia. Diz um provérbio chinês que não se deve fazer previsões... principalmente, sobre o futuro...

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